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08/04/2026

Programa de renegociação de dívidas deve reduzir custo do crédito sem incentivar a inadimplência, considera economista – O GLOBO

Um programa de renegociação de dívidas pode ter impacto positivo ao ajudar famílias a reorganizarem suas finanças, especialmente ao permitir a migração de modalidades mais caras, como rotativo e cheque especial, para linhas mais baratas e sustentáveis, avalia Katherine Hennings, pesquisadora do FGV Ibre e analista da consultoria BRCG.

Por Ana Carolina Diniz

Para ela, esse tipo de iniciativa também tende a aumentar a disposição dos bancos para renegociar, já que “é melhor recuperar alguma coisa do que nada”.

A economista alerta que o programa não pode funcionar como um “prêmio ao endividado”, sob risco de incentivar a inadimplência recorrente, e defende que a renegociação venha acompanhada de mecanismos que desestimulem o retorno rápido ao endividamento. O plano do governo, como antecipado por Miriam Leitão, é justamente criar uma iniciativa de educação financeira para evitar que as pessoas voltem a se endividar.

Em estudo publicado no blog da FGV, a economista destaca que o endividamento equivalente a 49% da renda anual é elevado, mas inclui crédito imobiliário, de longo prazo, e uma parcela relevante de crédito rural nas famílias. “Ou seja, a proporção é alta, mas não representa um risco iminente.”

Segundo ela, o que realmente preocupa é o comprometimento da renda: o tipo de crédito que está sendo tomado e quem está tomando esse crédito. Com base em dados do Banco Central, o estudo mostra que quase um terço da renda bruta das pessoas, em média, está sendo destinado ao pagamento de amortização e juros.

O endividamento das famílias caiu no início do governo, mas voltou a subir mesmo após o programa Desenrola. Em julho de 2022, a taxa estava em 49,88%, o maior nível da série histórica. Com o lançamento do programa, em julho de 2023, recuou para 47,9%. O indicador continuou em queda até dezembro, a 47,6%, e chegou a 47,58% em maio de 2024, quando o Desenrola foi encerrado após prorrogações.

A partir daí, voltou a subir, alcançando 48,06% em agosto de 2024, 48,65% em julho de 2025 e 49,08% em setembro, praticamente no mesmo nível de antes da iniciativa. No dado mais recente do Banco Central, de março, o endividamento chegou a 49,7%.

Inadimplência

O registro de inadimplentes (os “negativados”) se encontram em níveis recorde, em torno de 81,3 milhões de adultos, correspondendo a quase 50%. Número maior do que o os observados ao final de 2024 (73,5 milhões de adultos e 45,3% do conjunto de adultos). Em seu estudo, a economista mostra que a taxa de inadimplência está crescendo em todas as faixas de renda e em todas as modalidades de crédito, inclusive no crédito habitacional, que historicamente apresenta níveis baixos - entre 0,5% e 1%. Ainda assim, há avanço. No crédito rural, cerca de 83% está concentrado nas faixas de renda mais altas (acima de 10 ou 20 salários mínimos), onde também se observa aumento da inadimplência.

- Ou seja, todas as modalidades estão apresentando elevação na inadimplência. No entanto, o aumento é especialmente forte nas linhas que deveriam ser emergenciais - aquelas que não foram pensadas para uso prolongado.

A economista também chama atenção para os efeitos do endividamento sobre a atividade econômica. Segundo ela, o crédito deveria ajudar a suavizar ciclos, mas o excesso pode ter o efeito contrário.

- O crédito deveria funcionar como um suavizador do ciclo econômico. Quando está todo mundo crescendo, poupa para dar dinheiro para as pessoas poderem investir. Quando está em dificuldade, você usa essa poupança. No entanto, quando o nível de endividamento é elevado, o crédito pode aprofundar crises. Quando puxa muito a corda, tem um estoque muito grande de dívida, ele funciona como um agravante da crise.

Nesse cenário, a recuperação econômica tende a ser mais lenta, ressalta:

- Na hora que a economia desacelera, as pessoas têm que desalavancar mais rápido, elas têm muita dívida, perdem o emprego e, quando conseguem trabalho, é com salários mais baixos. Elas levam mais tempo para se recuperar, e o ciclo de desaceleração fica mais profundo e mais prolongado.

FONTE: O GLOBO