Por Camila Alves Barros
O mercado imobiliário de alto padrão tenta vender um novo jeito de envelhecer em São Paulo. Chama-se senior living: condomínios residenciais que oferecem serviços de saúde e hotelaria com foco em pessoas da terceira idade - com direito a enfermeiros de plantão, fisioterapia, aulas de pilates e restaurantes no térreo.
Um dos primeiros projetos foi lançado em novembro de 2025: o Naara Higienópolis, da Tecnisa em parceria com a Naara Longevity Residences. O empreendimento tem entrega prevista para outubro de 2028 e ficará na rua Alameda Barros, em Higienópolis, região nobre da capital paulista.
No mesmo bairro, a Vitacon, incorporadora especializada em estúdios, vai lançar em agosto deste ano um projeto com 510 unidades e consultoria do Hospital Albert Einstein.
Esses empreendimentos buscam se antecipar a uma tendência demográfica já desenhada: o Brasil está envelhecendo. E, em um futuro não muito distante, terá mais idosos do que jovens.
Envelhecimento populacional no Brasil
Compare a evolução da pirâmide etária desde o Censo Demográfico de 1940
(Veja gráfico na íntegra - https://investnews.com.br/negocios/brasil-envelhecendo-mercado-imobiliario/)
Em 2022, o Censo registrou 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais — o equivalente a 15,8% da população. Em 1980, eram 6,1%. Pelas projeções do IBGE, essa fatia deve se aproximar de 38% em 2070. Na prática, o país terá cerca de 316 idosos para cada 100 crianças e adolescentes de até 14 anos.
Há também uma mudança de perfil: a chamada “geração prateada” de hoje é mais ativa e longeva. Ao mesmo tempo, o país tem famílias menores, com menos filhos para dividir o cuidado com pais e avós quando ele se torna necessário.
De olho nessa tendência, incorporadoras brasileiras apostam em replicar um modelo já consolidado nos Estados Unidos. Por lá, ao fim de 2025, havia quase 635 mil apartamentos senior living ocupados.
Por aqui, no entanto, as companhias ainda precisam provar que o modelo faz sentido e se sustenta economicamente. O desafio é deixar claro ao público o que diferencia esses empreendimentos das tradicionais - e menos atrativas - casas de repouso ou asilos.
E convencê-los de que esses espaços, mais caros que apartamentos convencionais, oferecem ganhos palpáveis de autonomia e vida social aos mais velhos.
Casa, hotel, ambulatório
Joseph Nigri conhece muito bem o mercado imobiliário. Ele é filho de Meyer Nigri, fundador da Tecnisa, e chegou a comandar a construtora entre 2017 e 2021.
No ano passado, fundou a Naara Longevity Residences após uma década estudando o mercado de senior living ao redor do mundo. O interesse pelo tema, em parte, começou em casa: uma avó solitária em um apartamento grande demais.
“Ela precisava morar em um apartamento menor, contar com serviços e uma estrutura de saúde para cuidar dela. E tinha que estar com outras pessoas, convivendo, socializando”, disse Nigri em entrevista ao InvestNews.
A tese convenceu investidores de peso.
No ano passado, a família de Rubens Ometto, bilionário empresário da Cosan, aportou R$ 60 milhões na Naara por meio da gestora Rio das Pedras. A família Feffer, fundadora da Suzano, também entrou na operação, com Josef Feffer se tornando sócio minoritário da companhia.
Como primeiro laboratório da tese, o Naara Higienópolis terá 26 andares e 106 unidades, com pessoas de 75 anos ou mais como público-alvo.