Por Circe Bonatelli
A Cury Construtora atravessa dificuldades para concluir uma parte das suas obras dentro do prazo. Do total de 87 canteiros abertos, cinco já ultrapassaram a data de entrega (contando a tolerância de seis meses) e outros quatro estão aquém do cronograma de execução, com risco de também extrapolarem os prazos limites.
A situação gerou provisões para pagamento de indenizações e despesas extras de manutenção, que arranharam o balanço da companhia no segundo trimestre e provocaram queda nas ações nesta quarta-feira, 12, além de irritar clientes.
O que provocou os atrasos foi a dificuldade de contratar mão de obra e equipamentos em virtude do aquecimento do mercado imobiliário. “Tivemos um momento de muita demanda no mercado e não conseguimos recuperar esse atraso. Isso acabou pegando a gente numa contramão”, explicou o copresidente da companhia, Paulo Curi, durante teleconferência com investidores e analistas.
Lançamentos cresceram com o Minha Casa, Minha Vida
Entre 2020 e 2025, o número de empreendimentos lançados por ano pela Cury saltou de 17 (8,2 mil apartamentos) para 37 (26,4 mil). A empresa é especializada no Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Sua expansão ocorreu ao mesmo tempo em que o governo federal melhorou as condições de contratação no programa habitacional, com redução dos juros, ampliação das faixas de renda e do teto dos imóveis elegíveis.
Isso fez várias empresas que já atuavam no MCMV ampliaram suas operações, casos de Cury, Direcional, Tenda, MRV, Plano & Plano, entre outras. Além disso, construtoras que produziam empreendimentos de padrão mais elevado foram atraídas para o Minha Casa, aquecendo ainda mais o mercado de moradias populares, como Cyrela, Eztec, Trisul, Tecnisa etc.
O copresidente da Cury disse que os atrasos foram restritos a esses projetos cinco projetos, sendo que os demais empreendimentos seguirão o curso normal. Ele destacou ainda que a área de engenharia da construtora vem melhorando o desempenho, com ganhos de produtividade, o que alimenta a expectativa de recolocar no prazo de entrega os quatro projetos cuja execução está atrasada.
Diante dos atrasos já consumados, a Cury teve que fazer provisões em seu balanço do segundo trimestre, divulgado na noite de terça-feira, 11. A despesa financeira atingiu R$ 22,1 milhões, aumento de 41,7% na comparação com o mesmo período do ano passado. O diretor financeiro, João Mazzuco, disse que outras provisões serão constituídas, caso o atraso destes quatro empreendimentos se confirme. Ainda assim, a Cury teve lucro líquido de R$ 270,5 milhões no segundo trimestre, alta de 14,3% na comparação anual.
Clientes reclamaram
Juntos, os cinco projetos atrasados totalizam em torno de 2 mil apartamentos, o equivalente a R$ 600 milhões em vendas, segundo cálculos da reportagem. A Cury foi procurada, mas não quis compartilhar esses dados.
No site Reclame Aqui, é possível verificar que as reclamações por atrasos de obras estão concentradas nos empreendimentos Guedala Park (Butantã, São Paulo), Cidade Villa Jaguaré (Parque Continental, São Paulo), Energy Guarulhos, Elo Santo André e Pateo Nazareth, no Porto Maravilha (Rio de Janeiro).
O tempo de atraso varia. No Elo Santo André, o contrato previa entrega em setembro de 2025, podendo se estender a março de 2026 contando a tolerância, mas a conclusão da obra ocorreu só no fim de julho. Atualmente, as unidades estão sendo liberadas para vistoria. Já no Guedala Park, o prazo final incluindo a tolerância terminou em junho, mas ainda sem uma posição definitiva para a entrega.
Condomínio é contestado
Outra contestação dos consumidores é a cobrança da taxa de condomínio antes mesmo da entrega das chaves dos imóveis atrasados. No Site Reclame Aqui, a Cury respondeu oficialmente que “a cobrança condominial não está vinculada à entrega individual das chaves ou à realização da vistoria, mas à efetiva instalação e operação regular do condomínio”, segundo previsto no contrato de compra e venda.
Essa prática, entretanto, pode ser considerada abusiva, segundo o advogado Marcelo Tapai, especialista em direitos do consumidor. “Não basta a mera expedição do Habite-se (documento que atesta condições técnicas de ocupação do imóvel). Depois disso ainda há a instalação do condomínio e a liberação das vistorias de cada apartamento. Só aí ocorre a entrega da chave, que garante de fato a posse sobre o imóvel. Antes disso, a taxa de condomínio é responsabilidade da construtora. Repassar a cobrança é uma prática que pode ser abusiva”, afirma Tapai, citando entendimento consolidado pelo Tema Repetitivo 886 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pela súmula 160 do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O superintendente jurídico da Cury, Luiz Fernando Guimarães Lobato, esclarece que a companhia faz o pagamento do condomínio quando a entrega atrasa por culpa da empresa, mas se abstém do pagamento a partir do momento em que o cliente se mostra inapto a receber a chave - como em situações de inadimplência - e quando o cliente se recusa a receber a chave sem uma justificativa razoável - mesmo após serem sanados eventuais consertos após a vistoria. “Se não recebeu a chave por culpa nossa, continuamos pagando a taxa condominial”, afirma Lobato.