Notícias

18/06/2026

Para analistas, BC sinaliza que convergência da inflação para a meta ficará para 2028 – Folha de São Paulo

Comitê afirma que precisa diminuir Selic agora para evitar índice de preços abaixo da meta em 2028 Riscos incluem choques do El Niño, conflito no Oriente Médio e estímulos fiscais eleitorais

Por Felipe Gutierrez

Especialistas que acompanham a política monetária afirmam que o BC (Banco Central) dá sinais de que a inflação só vai convergir para o centro da meta de 3% em 2028 e que neste ano o resultado vai estourar o teto estabelecido de 4,5%.

Nesta quarta-feira (17), o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a Selic, a taxa básica de juros, em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, no terceiro corte consecutivo desde março.

No comunicado divulgado após a decisão, o comitê afirma que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 -sem dizer quanto exatamente.

O plano inicial era fazer uma série de diminuições da mesma intensidade. No entanto, o cenário foi revisto com o conflito no Oriente Médio, que fez com que as expectativas de inflação piorassem.

Há ainda a possibilidade de outros choques exógenos, como altas de preços ligadas ao El Niño (que pode ter impacto na conta de luz e nos alimentos) e de uma mudança da jornada de trabalho. Para os especialistas, não está claro, no entanto, se o ciclo de cortes chegou ao fim.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, afirma que os dados referentes ao mercado de trabalho e consumo indicam que a economia ainda está resiliente, mas que o investimento está desacelerando.

"A inflação já não estava controlada, apenas se encaminhando para chegar à meta, e isso fica cada vez mais distante, e o BC começa a falar de 2028. A ideia é que 2026 um caso perdido, 2027 pode ser outro e, talvez, em 2028 se consiga alcançar", disse.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, afirma que os efeitos da política monetária são longos, incertos e também cumulativos.

A próxima reunião do Copom acontece no início de agosto. Quando esse encontro ocorrer, o horizonte relevante da política monetária já vai incluir o primeiro trimestre de 2028.

Em sua nota, o Copom afirma que fez simulações que mostram que é preciso continuar a suavizar a política monetária agora para que a inflação não fique abaixo da meta de 3% no começo de 2028.

"O Copom não vai largar a meta de 2027, mas talvez não seja o centro, porque se ele fizer isso [apertar a política monetária], vai errar a inflação para 2028", afirma Cardoso. O economista ainda diz que vai aguardar mais informações sobre essas simulações na ata da reunião.

Ele não é o único: Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, diz que o comunicado "foi um pouco confuso, de modo que a ata será especialmente relevante para entendermos melhor o plano de voo".

Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, afirma que, no comunicado desta quarta-feira, houve um destaque para as simulações.

Lucas Barbosa, economista da AZ Quest Investimentos, vai pela mesma linha: em 2028 já vai ter passado todo o choque do petróleo e o efeito do El Niño deste ano e, sem esses fatores externos, a projeção aponta para uma inflação abaixo da meta.

Os analistas que acompanham a política monetária afirmam que o BC sinalizou que neste ano há dificuldades relacionadas às eleições. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, diz que o comunicado reconhece a piora do cenário doméstico desde abril.

"A projeção de inflação para 2026 saltou de 4,6% para 5,2%, e a estimativa para o 4º trimestre de 2027, horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,5% para 3,7%, aproximando-se do teto da meta."

Ele afirma então que, pela primeira vez, o BC citou explicitamente os estímulos à demanda, que seria uma referência a um impulso fiscal eleitoral, como fator de risco inflacionário.

Sérgio Samuel dos Santos, economista do Sistema Ailos, também diz que o comitê cita, entre os riscos inflacionários, a política fiscal e os estímulos econômicos.

Vale, da MB Associados, também afirma que a vida do BC fica mais difícil com um comportamento fiscal e parafiscal expansionista.

FONTE: FOLHA DE SãO PAULO