Por Breno Damascena
O programa habitacional Minha Casa, Minha Vida se tornou um dos principais pilares do governo Lula (PT) em seus três mandatos. O sucesso do projeto é reconhecido pelo setor imobiliário como um dos motores do mercado imobiliário nos últimos anos. Com o presidente atrás na corrida pelo executivo, os incorporadores defendem que a iniciativa se torne política de Estado e não de governo.
Diante dos resultados do primeiro turno das eleições, um relatório da J.P. Morgan prevê uma valorização expressiva do mercado acionário brasileiro, impulsionada pela perspectiva de correção de preços e medidas fiscais.
Entre as companhias em destaque, aparecem Cyrela e Eztec, incorporadoras com atuação expressiva no alto padrão. Empresas com foco exclusivo no segmento econômico não foram citadas.
“O setor reconhece que o governo deu muito espaço para o MCMV. Agora o mercado imobiliário está de olho para entender a postura do governo Bolsonaro em relação ao programa. É uma preocupação”, afirma Gustavo Favaron, CEO do GRI Institute, uma think tank do mercado imobiliário. “O Minha Casa, Minha Vida precisa ser um programa de Estado”, defende.
Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, o MCMV representou 86,7% das unidades lançadas e 83% das unidades vendidas no País, de acordo com dados da Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc). O bom momento do segmento econômico provocou o surgimento de novas companhias e atraiu incorporadoras tradicionais para atuar no setor.
Apesar disso, Ely Wertheim, presidente-executivo do Secovi-SP, afirma que o mercado não teme os dois cenários possíveis.
“Não temos uma preferência, desde que o MCMV seja sempre preservado, os recursos do Fundo de Garantia (FGTS) e da caderneta de poupança sejam direcionados e os juros caiam”, comenta. “Nenhum dos dois candidatos disse que vai interromper o programa ou mexer na poupança.”
Juros altos geram preocupação
Se o Lula tem a simpatia do setor pela expansão do MCMV, a alta de juros observada durante o governo petista gera preocupações. “O mesmo governo que acena de forma positiva para o mercado imobiliário, passa os pés pelas mãos em relação aos gastos e controle das contas públicas. Isso faz com que a gente tenha uma das taxas de juros mais altas do mundo”, diz Favaron.
Segundo ele, desenvolver projetos imobiliários com juros neste patamar traz uma série de desafios. “Quando a gente ouve um candidato que prega responsabilidade fiscal e ajuste de contas, há a expectativa de que possa trazer alívio”, complementa. “É um sentimento misto de parceria com o MCMV e a preocupação de poder operar numa taxa de juros mais adequada”.
Para o economista Alberto Ajzental, coordenador do curso de negócios imobiliários da FGV-SP, a projeção de um governo petista não atenderia a essa demanda de diminuição dos juros. “A continuidade do governo atual sinaliza aumento contínuo do déficit fiscal, maior endividamento do País, juros permanentemente elevados e inflação fora da meta de 3%”, afirma.
Ajzental analisa que iniciativas como o programa Desenrola foram insuficientes para resolver o endividamento estrutural das famílias e empresas. “É necessário sair de um ciclo vicioso de gastos descontrolados, inflação e juros altos para um ciclo virtuoso de recuperação e estabilização econômica gerado pelo compromisso com a responsabilidade fiscal.”
Demandas do mercado imobiliário
Durante a corrida eleitoral, o Secovi-SP afirma ter se reunido com todos os candidatos para apresentar sugestões, dados e propostas. O grupo pede um ajuste fiscal para viabilizar a redução das taxas de juros e um reforço do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), tradicionalmente a maior fonte de recursos para financiamento habitacional da classe média.
Também demandam a manutenção do Minha Casa, Minha Vida e a garantia de que os recursos do FGTS continuem destinados ao setor imobiliário. “Independentemente do resultado das eleições, a gente vai ver um corte de despesas. Os dois candidatos terão de fazer isso porque é preciso melhorar o fiscal para abrir espaço para a queda dos juros”, comenta Wertheim.
No entanto, o representante do setor acredita que o segmento não deve sentir tanto a diferença entre os dois governos. “O mercado imobiliário tem um ciclo de sete a oito anos, não pensamos muito no dia a dia. Quem trabalha no setor vai pegar sempre mais de um governo entre a aprovação e a entrega do projeto”, complementa o executivo.