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07/10/2026

Alta do custo com moradia leva famílias a cortar despesas, mostra estudo da Habitat Brasil (Valor Econômico)

Valorização e a busca por rentabilidade pressionam aluguéis, forçam moradores a deixarem áreas valorizadas e ampliam vulnerabilidade habitacional, diz Socorro Leite, diretora-executiva da organização.

Por Vanessa Oliveira

 

O aumento dos custos com moradia tem comprometido o orçamento das famílias brasileiras, dificultado o acesso à casa própria e reduzido a capacidade de investir na melhoria das residências, aponta levantamento da Habitat para a Humanidade, organização não governamental focada em política habitacional.

Em pesquisa de percepção pública, 82% da amostra afirmam que o encarecimento da habitação dificulta a realização do sonho da casa própria. Outros 74% disseram ter reduzido algum gasto no último ano para conseguir pagar onde vivem, enquanto 56% temem que um imprevisto financeiro comprometa sua permanência na moradia.

O levantamento, realizado pela Edelman Intelligence com 1.400 pessoas entre abril e junho deste ano, reforça um cenário observado por indicadores socioeconômicos. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o número de domicílios alugados cresceu 54,1% em uma década, passando de 12,2 milhões, em 2016, para 18,9 milhões, em 2025. Ao mesmo tempo, a valorização dos imóveis e os juros elevados têm restringido o acesso ao crédito imobiliário.

Na avaliação da diretora-executiva da Habitat para a Humanidade Brasil, Socorro Leite, a pesquisa evidencia o problema habitacional. "Moradia não é um gasto qualquer que pode simplesmente ser cortado. É o espaço de proteção da família. Quando esse custo aumenta, outros itens essenciais acabam sacrificados.

O problema é que a moradia passou a ser tratada cada vez mais como um ativo voltado ao lucro, o que pressiona os aluguéis e dificulta a permanência das famílias em suas casas. Para muita gente, uma perda de renda significa deixar de pagar aluguel e migrar para ocupações informais, ampliando o déficit habitacional", afirma.

Segundo Socorro, esse movimento está relacionado à "financeirização das cidades", quando a valorização imobiliária e a busca por rentabilidade acabam pressionando os preços dos aluguéis, expulsando moradores de áreas valorizadas e ampliando a vulnerabilidade habitacional, sobretudo entre as famílias de menor renda.

Ela alerta para o ônus excessivo com aluguel — quando a despesa ultrapassa 30% da renda familiar. Embora esse quadro seja mais frequente entre famílias de baixa renda, também atinge parte da classe média, especialmente em um contexto de crédito imobiliário mais caro, observa.

Segundo Socorro, o aperto no orçamento também reduz a capacidade das famílias de adaptar suas moradias aos efeitos da crise climática. A Pnad Contínua - Características Gerais dos Domicílios e Moradores, divulgada em abril deste ano, mostra que 48,9% dos domicílios brasileiros ainda têm telha sem laje de concreto como cobertura predominante, condição que pode aumentar a exposição ao calor intenso.

Com o fortalecimento do El Niño nos próximos meses, a necessidade de investir em melhorias habitacionais tende a ganhar importância. "Existe um contingente enorme de famílias que tem uma casa, mas vive em moradias inadequadas, com problemas no telhado, no piso, no banheiro ou em outras estruturas básicas. Somando inadequação habitacional e falta de infraestrutura, são mais de 20 milhões de domicílios. Sem investimento contínuo em melhoria habitacional e políticas públicas permanentes, esse passivo continuará crescendo", afirma.

Apesar das dificuldades, a expectativa de conquistar uma casa própria permanece elevada. A pesquisa mostra que 92% da amostra esperam possuir uma moradia em algum momento da vida e que 91% consideram a habitação adequada um direito humano básico.

FONTE: VALOR ECONôMICO