Por Breno Damasceno
O mercado imobiliário brasileiro encerrou 2025 com incorporadoras batendo recordes históricos de faturamento e lançando projetos bilionários. As empresas do setor listadas na Bolsa de valores celebram mais de R$ 55 bilhões em receita líquida, uma alta de 20% em relação ao ano anterior, mas carregam dívidas maiores e o segmento se mostra altamente dependente do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.
“O alto padrão, em que o comprador não depende tanto de financiamento do banco, se mostrou mais resiliente, enquanto o setor de média renda apanhou um pouco mais - pois é o comprador mais sensível aos juros altos”, diz Ygor Altero, analista-chefe do setor imobiliário na XP. “Mas o melhor desempenho está na baixa renda, dada as melhorias que temos visto no MCMV”, afirma.
Recordes no segmento econômico
Os incentivos criados pelo programa habitacional impulsionaram a Cury a alcançar o melhor resultado de sua história. A incorporadora possui cerca de 95% de seu portfólio enquadrado no MCMV. “Com a criação da Faixa 4, observamos uma ampliação do poder de compra e na aquisição de imóveis pela classe média”, antecipa Mesquita.
Lançada em 2025, a Faixa 4 do MCMV foi criada para englobar famílias que recebiam de R$ 8.600 a R$ 12 mil mensais. Em março deste ano, o valor subiu para R$ 9,6 mil a R$ 13 mil. A ampliação busca melhorar as condições para quem não tem os subsídios e benefícios das faixas inferiores e estão mais expostos às taxas de juros.
Na prática, essas famílias têm juros mais baixos e prazos mais longos de financiamento para adquirir imóveis que custam até R$ 600 mil (o valor original era R$ 500 mil).
A Cury fechou o ano com lucro líquido de R$ 975,5 milhões e margem de 18,1%, além de 84 obras em andamento e 37 novos projetos.
“Observamos um crescimento expressivo em nossos lançamentos, que totalizaram R$ 8,3 bilhões em VGV (valor geral de vedas), e nas vendas líquidas, que alcançaram R$ 7,8 bilhões”, afirma Leonardo Mesquita, co-CEO da Cury. “A produção de 16,7 mil unidades e a expansão do banco de terrenos para R$ 24,6 bilhões em VGV indicam a capacidade operacional e planejamento de longo prazo”, diz.
Altero, da XP, corrobora a visão positiva. “A Cury é a única empresa do segmento que consegue crescer gerando caixa, sem precisar recorrer à venda de sua carteira de recebíveis e está rodando com um ROE acima dos 70%”, comenta.
Também especializada no segmento econômico, a Plano&Plano alcançou o maior lucro líquido da sua história, com R$ 361,5 milhões. O resultado segue na esteira de 21 lançamentos, 17,8 mil unidades anunciadas e mais de R$ 5 bi em VGV. Além disso, a companhia alcançou mais de R$ 4,3 bi em vendas líquidas.
O MCMV teve papel central nesse resultado, sendo o principal motor de volume da empresa. A Plano&Plano possui forte atuação no programa desde sua criação e encerrou 2025 com mais de 42 mil unidades em construção, distribuídas em 67 canteiros.
“Novas ferramentas que auxiliam na jornada de compra do imóvel estão sendo implementadas, melhorando a experiência do cliente, visando maior conversão”, detalha João Hopp, VP executivo e diretor de relações com investidores da Plano&Plano.
O momento operacional positivo, porém, tem um gargalo: a margem bruta sofreu uma compressão. Para Hopp, o cenário reflete o crescimento acelerado da construtora e a expansão da operação.
“Parte da compressão da margem vem dos produtos vendidos no âmbito do programa Pode Entrar, que são vendidos a preços mais baixos comparados ao do mercado privado, comprimindo a margem bruta, mas parcialmente compensados por despesas comerciais mais baixas. Em 2025 a companhia entregou 3,6 mil unidades para o município de São Paulo referentes a este programa”, justifica.
Outra incorporadora com desempenho histórico em 2025 foi a Tenda, que atingiu um lucro líquido consolidado de R$ 505,7 milhões, um crescimento de 375,2% em relação a 2024.
A empresa também alcançou o marco de 20 mil unidades construídas e 45 projetos lançados. “O MCMV é um pilar estrutural do nosso negócio e teve papel central no desempenho de 2025. A previsibilidade do programa, combinada à forte demanda por habitação nas faixas de renda atendidas, sustenta nosso crescimento com maior visibilidade e menor volatilidade”, explica Luiz Maurício Garcia, CFO da Construtora Tenda.
“A atuação da Tenda, principalmente nas faixas 1 e 2, nos permite capturar essa demanda de forma eficiente”, diz.
Apesar disso, a Alea, frente de casas industrializadas da Tenda, atrapalhou o bom desempenho e precisou de uma “correção de rota”. “Aceleramos antes da hora e esse erro de timing nos levou a um ‘freio de arrumação’ necessário”, disse a companhia, no relatório anual. Esse erro gerou um custo de R$ 99 milhões ao caixa da empresa.