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19/02/2026

Mercado imobiliário aquecido aponta para novo "boom" do setor em 2026 – CNN Brasil

Apesar de otimismo, setor chama atenção para riscos, como mudança na escala 6x1, que podem impactar em aumento de preços aos consumidores

 

O ritmo de expansão do mercado imobiliário nos últimos trimestres mostram um setor aquecido e com potencial para gerar um novo “boom” em 2026, mesmo em um ambiente de pressão com a maior taxa de juros em duas décadas no Brasil.

Agora, com as perspectivas mais consolidadas para o início do clico de cortes da Selic pelo Copom (Comitê de Política Monetária) neste ano, o fôlego do mercado financeiro - que vem recebendo um grande fluxo de capital estrangeiro -, além do ânimo geral do setor, analistas e grandes players já projetam: 2026 será o ano de um novo salto imobiliário.

Apesar do cenário otimista, especialistas ouvidos pelo CNN Money sinalizam pontos que podem prejudicar o setor, como a mudança na jornada de trabalho 6x1.

São Paulo e o termômetro nacional

Dados da Brain Inteligência Estratégica revelam uma aceleração vigorosa no coração econômico do país.

Na cidade de São Paulo, o volume de unidades vendidas no acumulado de 12 meses saltou de 138,8 mil no segundo trimestre para 151,7 mil imóveis ao fim do terceiro trimestre de 2025.

Esse movimento não é isolado. Ao nível nacional, a intenção de compra de imóveis atingiu a marca histórica de 50%.
Ou seja, um em cada dois brasileiros manifesta o desejo de adquirir uma propriedade no curto ou médio prazo.

Dos fatores que explicam essa euforia, há, em primeiro lugar, uma mudança demográfica: a Geração Z (jovens entre 21 e 28 anos) lidera o apetite por moradia, com 56% de intenção de compra.

“Aquela ideia que muito se implantou, que se divulgou ao longo dos últimos 5, 10 anos, de que o jovem quer morar de aluguel, na prática, todas as pesquisas demonstram que é bobagem”, diz Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain.

“Os jovens são os que mais querem comprar imóveis porque eles querem melhorar de vida. Eles podem ter dificuldade de comprar imóvel, mas são os que mais desejam”.

Em segundo lugar, o desempenho recorde do mercado financeiro também traz otimismo ao setor.

Com o Ibovespa em patamares históricos, o chamado "efeito riqueza" faz com que investidores realizem lucros na bolsa para reinvestir no "tijolo", buscando segurança e ganho real.

A compra de imóveis como investimento - aluguel ou revenda - representou 26% das aquisições no 4º trimestre de 2025, uma alta significativa frente aos 20% do mesmo período do ano anterior, conforme a Brain.

O principal índice da bolsa de valores brasileira registrou alta acumulada de 12,56% em janeiro, o terceiro melhor resultado em 16 anos, segundo levantamento da Elos Ayta.

Do ponto de vista cambial, o Ibovespa acumulou avanço de cerca de 20,37% até o fim do mês, ficando entre os 11 maiores ganhos mensais em dólares desde 2000.

E o ganho real já é uma realidade. No último trimestre de 2025, o preço do metro quadrado em São Paulo subiu 2,1%.

Confrontado com uma inflação estimada em 1,2% no período, segundo dados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o setor entregou uma valorização real de aproximadamente 0,89% em apenas 90 dias - um rendimento que começa a bater de frente com a renda fixa, agora em trajetória de queda.

“No início desse ano, já sentimos um movimento grande não só do investidor de bolsa, mas do capital estrangeiro vindo muito mais forte para o Rio de Janeiro”, comenta Elcilio Brito, do Grupo BSJ.

“Temos uma operação que transfere dinheiro de fora para o Brasil e sentimos uma alta em torno de 30% a 35% de investidores de fora, olhando o mercado do Rio de Janeiro, o que é diferente dos outros estados”.

O desafio dos custos e a resiliência do setor

Nem tudo, porém, é certeza. Como aponta o CEO da Brain, o setor observa de perto a reforma tributária e o custo dos insumos.

Outro possível “cisne negro” que pode ser uma pedra no sapado desse potencial “boom” imobiliário é a alteração da escala de trabalho 6x1, com a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que sugere a redução da jornada semanal de 44 horas para 36 horas.

Atualmente, três PECs estão em debate no Congresso. A mais recente está na Câmara e implementa a jornada 4x3 sem transição (totalizando 36 horas por semana). Também na Câmara, outra proposta já tramita desde 2019 e prevê a diminuição gradual da jornada atual de 44 horas semanais num prazo de 10 anos até alcançar as 36 horas.

O setor da construção civil vê com preocupação essa possível alteração da escala, conforme defendido pelo Ministério do Trabalho.

O setor imobiliário de São Paulo acompanha as tramitações de perto, e prevê alta dos preços caso as mudanças sejam concretizadas.

Segundo o Secovi-SP, o reajuste seria repassado aos preços de produtos e serviços, já que os setores econômicos de produção, comércio e serviços não terão como absorver a contratação de mais mão de obra.

Luiz França, presidente da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), reforça que o custo da mão de obra aumentará, refletindo em preços maiores aos consumidores.

“Ela representa 45% a 50% do custo do índice, então isso vai encarecer, vai para o consumidor final em todos os setores”, diz.

O especialista também chama a atenção para o programa Minha Casa, Minha Vida, desafiando a capacidade de pagamento das famílias de baixa renda.

“Como é que vai ficar o Minha Casa Minha Vida se tiver que aumentar o preço da moradia? A prestação tem que subir’’ house.

A todo vapor

Apesar dos desafios que se desenham no horizonte, a oferta está se ajustando.

No terceiro trimestre, as incorporadoras em São Paulo "ligaram as máquinas", lançando mais de 15 mil novas unidades em relação ao período anterior.

O estoque - período em que um novo imóvel fica à venda após o lançamento - na capital paulista é de 9 meses, um nível considerado saudável, mas que sinaliza urgência para novos lançamentos caso a demanda continue a subir.

Fora do programa de desenvolvimento habitacional, outros segmentos nadam contra os juros.

“Dentro do mercado brasileiro, há dois segmentos muito distintos, que é o Minha Casa, Minha Vida, que usa o funding do fundo de garantia, que normalmente não é afetado pela Selic mais alta, e outras pontas; os mercados de médio e alto padrão, esses, sim, são muitíssimo afetados pela Selic alta”, explica Eduardo Fischer, CEO da MRV&Co.

“Então a nossa indústria, de forma geral, é uma indústria que depende de uma macroeconomia organizada, estável e com taxa de juros baixa”.

2026: o ano da consolidação

"As perspectivas são muito boas", resume Fábio Tadeu, da Brain.

Se as "tempestades não previstas" não surgirem no horizonte macroeconômico, 2026 tem tudo para ser o ano em que o recorde de intenção de compra se transformará no maior volume de escrituras assinadas da história do país.

Com o setor de construção civil projetando crescer acima do PIB (Produto Interno Bruto), o mercado imobiliário deixa de ser apenas um sobrevivente dos juros altos para se tornar o motor da economia brasileira no próximo ano.

Para a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), o setor estima crescer acima da economia nacional em 2026, um resultado para a construção melhor do visto no ano anterior.

A expectativa de crescimento em 2%, em relação aos 1,6% do PIB brasileiro, é sustentada por fatores como o início da queda na taxa de juros, programas como o Reforma Casa Brasil, além de orçamento recorde para a habitação financiado pelo FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e dos investimentos em obras de infraestrutura.

Para Eduardo Fischer, “quando a gente soma tudo isso, eu olho para 2026 com bastante otimismo. Uma indústria que já vem bem, apesar da taxa de juros muito alta, tende a ter um 2026 e 2027 melhor ainda”.

 

FONTE: CNN BRASIL