Por Míriam Leitão
Na minha avaliação, é muito mais provável que o BC deixe seus próximos passos em aberto. A autoridade monetária tem procurado manter liberdade para decidir a cada reunião, justamente por causa da incerteza que marca 2026. O ano começou de um jeito e teve um plot twist com a guerra de Donald Trump contra o Irã.
Daqui a 45 dias, quando acontecerá a próxima reunião, caso o acordo de paz tenha sido realmente firmado, a navegação pelo Estreito de Ormuz esteja restabelecida e o petróleo retornado ao patamar de US$ 80 por barril - ou até abaixo disso - haverá um cenário diferente. Afinal, toda essa alta dos preços é artificial, provocada pelo conflito. No começo do ano, o petróleo oscilava na faixa dos US$ 60; chegou aos US$ 70 pouco antes dos ataques americanos e, depois, ultrapassou a barreira dos US$ 100. Nessas condições, haveria uma perspectiva de menor pressão inflacionária no segundo semestre e, assim, o ciclo de cortes poderia continuar. A cada 45 dias, mais 0,25 ponto percentual de redução.
A cautela do BC tem razão de ser. O último dado de inflação acumulada em 12 meses já rompeu o teto da meta, alcançando 4,72%. A projeção dos analistas do mercado financeiro é de um IPCA de 5,3% ao fim deste ano. No Boletim Focus, as expectativas para os juros também vêm sendo revisadas para cima: a estimativa alcançou 13,75% nesta semana, o que significa que a Selic cairá menos ao longo do ano do que se previa antes de qualquer sinal de conflito no Oriente Médio. A questão é: o ciclo termina agora ou continua? Como os juros ainda estão muito altos, a tendência parece ser de continuidade, ainda que com cortes modestos.
Também será interessante observar a sinalização sobre os próximos passos do banco central dos Estados Unidos, o Fed. A reunião desta quarta-feira será a estreia de Kevin Warsh, novo presidente do Federal Reserve, nomeado por Trump justamente com a missão de reduzir os juros americanos. Jerome Powell, ex-presidente da instituição, permanece no colegiado que decidirá a nova taxa, o que desenha um cenário de divisão dentro do conselho do Fed. O que se espera é um voto de Warsh em favor de uma política monetária mais frouxa, afinal foi essa missão que recebeu de Trump. Mas reduzir juros nesse momento não é possível, a inflação americana está em 4%. Os juros americanos estão na faixa entre 3,50% e 3,75% nos Estados Unidos e devem permanecer nesse intervalo.
Não se sabe se o Fed dará indicações mais claras sobre o que vem pela frente. Mas há economistas que avaliam, inclusive, que a instituição poderá ser obrigada a elevar a taxa ao longo deste ano, em vez de reduzi-la, como se esperava antes do conflito. E a razão, assim como no Brasil, é a guerra causada por Donald Trump. Ao iniciar o conflito no Oriente Médio, Trump atirou no próprio pé e acabou atingindo a economia global, inclusive a brasileira.