Poir Circe Bonatelli
A Iguatemi - dona de 17 shoppings e outlets de grife - está tirando do papel um dos maiores empreendimentos imobiliários do País. A empresa lançou o Casa Figueira, loteamento de 1 milhão m², dimensão equivalente à Vila Olímpia, na capital paulista. O projeto dará origem a um novo bairro entre as rodovias Dom Pedro I e Heitor Penteado, em Campinas (SP).
Quem passar pelo terreno hoje verá uma grande área verde sendo cortada por quatro quilômetros de avenidas. As máquinas trabalham na preparação do local para receber 100 prédios residenciais e comerciais nos próximos 20 anos. A empresa espera R$ 10 bilhões em vendas ao longo desse período e a atração de 50 mil pessoas.
Projetos dessa magnitude são pouco comuns no Brasil devido ao volume alto de investimentos para preparação do terreno, demora na obtenção de licenças e retornos no longo prazo para as empresas. A título de comparação, o maior bairro planejado em obras no Brasil é o Reserva Rapozo, da RZK Empreendimentos, com previsão de 124 prédios e 80 mil pessoas na região metropolitana de São Paulo. Outro gigante está sendo feito pela MRV, com cerca de 65 prédios na zona norte de São Paulo.
“Queremos mostrar que temos condições de fazer urbanismo de qualidade, assim como já fazemos shoppings de qualidade”, afirma Carlos Jereissati, acionista e membro da família controladora da Iguatemi, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.
O loteamento fica em frente ao Shopping Iguatemi Campinas, inaugurado em 1980, quando Jereissati ainda era criança. “O shopping tornou a região interessante, bastante visitada, e agora é possível planejar o entorno de uma maneira organizada”, conta.
História do terreno
O projeto resulta de um contrato assinado décadas atrás pela Iguatemi para o desenvolvimento imobiliário do terreno, que pertence à Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac), uma organização independente com atuação em causas sociais da cidade. A Feac ficou com 70% do loteamento, e a Iguatemi, 30%.
No terreno ficava a Fazenda Vila Brandina, doada à Feac na década de 60 pelo casal Odila e Lafayette Álvaro de Souza Camargo. A fazenda tinha uma enorme figueira ao lado do casarão central - ambos estão conservados até hoje e inspiram o nome do projeto. Nos arredores, surgiu o bairro Vila Brandina, que se valorizou com o shopping e a chegada de prédios de alto padrão.
Os investimentos na infraestrutura do Casa Figueira da primeira fase somaram R$ 250 milhões, dos quais R$ 75 milhões serão do Iguatemi, e devem estar concluídos até agosto. Isso abrange pavimentação, energia, saneamento, calçadas, ciclovias e um estande para visitas - que mais tarde será transformado em centro cultural.
O bairro conservará 240 mil m² (algo como 30 campos de futebol) de áreas verdes, incluindo a criação de quatro parques públicos. Os futuros edifícios serão integrados a alamedas e praças, além de zonas de comércios e serviços, com lojas, cafés, restaurantes, escolas e centros médicos.
O projeto visa concentrar moradia, trabalho e lazer em locais acessíveis em até 15 minutos à pé. Nos entornos, nada de muros. “Este não é um condomínio fechado. É um bairro integrado à sociedade”, ressalta Jereissati. “A ideia é usar menos o carro. As cidades onde as pessoas caminham nas ruas são mais seguras. Você olha o bairro do Morumbi, por exemplo, tem muros altos, ninguém anda na rua, isso é inseguro”.
Comercialização
A venda dos lotes já começou e será feita gradualmente, destinada aos incorporadores, não ao consumidor final. Cada lote receberá prédios residenciais e comerciais feitos por empresas que comprarem os terrenos da Iguatemi/Feac em troca de pagamento em dinheiro ou participação nas vendas futuras dos apartamentos e escritórios.
A Iguatemi dará a palavra final sobre os projetos, exercendo uma curadoria de arquitetura, localização, tipo de uso e público-alvo. “Fazemos isso para dosar a volumetria do bairro e dar mais organização”, explica Jereissati.
Na primeira fase, serão ofertados ao mercado 46 lotes, dos quais 40 residenciais e 6 comerciais. Até aqui, quatro lotes foram vendidos para os incorporadores Building, GNO e A. Yoshii. As entregas dos primeiros prédios serão entre 2028 e 2029. “Esperamos vender de quatro a cinco lotes por ano. Isso depende da situação do mercado”, comenta. A estimativa da Iguatemi é receber cerca de R$ 20 milhões por ano com as vendas.
O primeiro lançamento para o consumidor final acaba de ser aberto. É um projeto residencial da Building, batizado de ‘Avenida 105’. O prédio terá apartamentos de 3 a 4 suítes, com preços a partir de R$ 2,5 milhões. O público-alvo dos imóveis no Casa Figueira são os consumidores das classes A e B - assim como os frequentadores dos shoppings da Iguatemi. Já no dia a dia, é esperado um público mais diverso, considerando os trabalhadores e visitantes a lazer.
Projetos da Iguatemi
Em um sinal de confiança no loteamento, a Iguatemi terá alguns projetos próprios ali. A companhia vai lançar, no segundo semestre, uma torre de escritórios ao lado do seu shopping. O imóvel terá 17 mil m² de área bruta locável (ABL) e um investimento total de R$ 232 milhões. Quando concluído, é esperada uma receita operacional líquida de R$ 27 milhões anuais.
Outro projeto previsto é um complexo multiúso, com escritório, comércio, hotel e moradia no local onde hoje está situado o supermercado Carrefour, que seria fechado temporariamente e reaberto na inauguração. “Mas isso é coisa para daqui a cinco ou seis anos”, estimou Jereissati.