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23/01/2026

Colapso imobiliário pesa sobre o crescimento econômico da China - InfoMoney

Milhões de famílias, atingidas pela queda do valor de seus imóveis, reduziram os gastos

 Na China, as vendas de imóveis novos caíram ao nível mais baixo em mais de 15 anos, e os preços de apartamentos usados despencam. Milhões de famílias, atingidas pela queda do valor de seus imóveis, reduziram os gastos. Governos locais, que dependem fortemente do setor imobiliário para arrecadação, enfrentam dificuldades para pagar seus servidores públicos.

No início do ano passado, muitos na China temiam que uma guerra comercial com o presidente Donald Trump fosse o maior desafio para a economia. No entanto, o superávit comercial geral do país aumentou no ano passado, enquanto o verdadeiro problema para Pequim revelou-se o colapso do mercado imobiliário, iniciado há quatro anos e agravado a cada mês que passa.

Apesar de todos os problemas econômicos desencadeados pelo lento colapso do mercado imobiliário do país, os estatísticos chineses continuam a divulgar um crescimento econômico previsivelmente estável, impulsionado por um boom nas exportações que produziu um superávit comercial recorde de US$ 1,19 trilhão em 2025.

Na segunda-feira (19), o Escritório Nacional de Estatísticas informou que a economia da China cresceu 5% no ano passado, exatamente o mesmo que no ano anterior. A taxa oficial de crescimento atingiu a meta do governo, definida em março, pelo segundo ano consecutivo.

A economia chinesa se expandiu de outubro a dezembro a um ritmo que, se mantido por um ano inteiro, representaria uma taxa de crescimento de 4,9%.

Exportações robustas estão compensando o fraco consumo tanto de famílias urbanas quanto rurais. Em novembro, as vendas no varejo mal cresceram em relação ao ano anterior, marcando o pior desempenho mensal do consumo desde a pandemia de covid-19. Em dezembro, as vendas no varejo caíram 0,1%, mesmo em relação ao fraco resultado de novembro.

Alguns economistas ocidentais agora dizem que o crescimento real da economia pode ser metade do que indicam as estatísticas oficiais. O Rhodium Group, uma empresa de pesquisa sediada em Nova York especializada na China, estima que a economia do país cresceu de 2,5% a 3% no ano passado e deve desacelerar ainda mais neste ano.

Mas autoridades chinesas ofereceram avaliações otimistas da economia como parte de um esforço mais amplo para elevar a confiança do consumidor, que pesquisas governamentais constataram ser muito fraca.

“De modo geral, a economia nacional manteve um ímpeto de progresso constante em 2025, apesar de múltiplas pressões”, disse Kang Yi, comissário do órgão de estatísticas, em uma coletiva de imprensa para anunciar o desempenho da economia.

A construção e outras atividades imobiliárias representavam cerca de um quarto da economia chinesa até 2021. Assim, a forte desaceleração do setor prejudicou famílias e indústrias em todo o país.

O investimento em novos conjuntos de apartamentos, torres de escritórios, fábricas e outros ativos fixos caiu 3,8% no ano passado, informou o órgão de estatísticas. Foi o primeiro recuo desde 1989, quando o governo conteve investimentos em meio a pressões inflacionárias que contribuíram para os grandes protestos da Praça da Paz Celestial naquele ano.

“O forte declínio do setor imobiliário pode explicar quase integralmente o desempenho econômico fraco dos últimos três anos”, escreveu Zhu Tian, professor de economia da China Europe International Business School, em Xangai, em uma análise publicada em novembro.

A queda também provocou arrependimento entre compradores. Zoe Zhao, uma servidora pública de 27 anos em Xi’an, cidade do centro da China, comprou um imóvel com os pais em outubro de 2024, depois que os preços haviam despencado, apenas para ver os valores caírem ainda mais.

“É difícil dizer que não me arrependo, mas pelo menos posso me consolar dizendo que este apartamento é para eu morar”, afirmou. “Ainda bem que não compramos no pico.”

Dados oficiais mostram que os preços caíram um quinto desde 2021 - aproximadamente o mesmo que a queda média nacional nos Estados Unidos durante o colapso do mercado imobiliário de 2008 a 2010. Dados não oficiais, porém, indicam que as quedas de preços na China são pelo menos duas vezes mais acentuadas.

O número de transações estagnou, especialmente no caso de apartamentos recém-construídos. Um relatório do mês passado da China Index Academy, uma empresa de pesquisa imobiliária, afirmou que imóveis colocados à venda agora permanecem no mercado por uma média de 22,2 meses antes do fechamento do negócio.

Compradores têm exigido descontos de até 80% em relação ao pico do mercado em 2021. Vendedores resistem a aceitar perdas tão grandes, fazendo com que o mercado de apartamentos congele em muitas cidades.

Sam Radwan, CEO da Enhance International, uma consultoria imobiliária de Chicago, disse que, em 45 anos acompanhando mercados imobiliários em mais de duas dúzias de países, nunca tinha visto imóveis permanecerem sem vender por tanto tempo quanto agora na China. Durante suas viagens recentes pelo país, afirmou que profissionais do setor imobiliário continuavam extremamente pessimistas.

“Você conversa com todo mundo, e todos sabem que não há solução”, disse Radwan. “Isso não vai desaparecer na próxima década.”

O colapso dos preços abalou a confiança no mercado imobiliário, antes considerado o lugar mais seguro para investir as economias das famílias. Os líderes chineses agora buscam restaurar a confiança no mercado.

Autoridades governamentais começaram a censurar fortemente postagens pessimistas on-line sobre os mercados imobiliários de Pequim e Xangai no fim do ano passado. A divulgação pública dos mais conhecidos índices de preços de apartamentos do setor privado também foi suspensa.

Governos locais tentaram adquirir apartamentos não vendidos de incorporadoras em dificuldade para transformá-los em habitação acessível. Mas a queda da arrecadação de impostos e das vendas de terrenos significa que esses governos não têm recursos para subsidiar essas transações.

Sem grandes reduções de preço - algo que as incorporadoras relutam em fazer -, os governos locais incorrerão em pesadas perdas ao alugar os apartamentos, disse Radwan.

Por trás dos problemas do mercado imobiliário está uma vasta oferta de moradias recém-construídas, somada à queda no número de casamentos e nascimentos a cada ano, o que reduziu o impulso para a compra de novas casas.

A China tinha cerca de 41 metros quadrados de moradia para cada homem, mulher ou criança vivendo em cidades em 2024, em comparação com 32 metros quadrados apenas 15 anos antes.

Eram menos de 9 metros quadrados por pessoa antes da morte de Mao Tsé-Tung, em 1976.

FONTE: INFOMONEY