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02/08/2021

Cidades pós-Covid: pandemia cria janela rara para mudar espaço urbano brasileiro

Demanda por mais espaços ao ar livre e a valorização da vida de bairro, por exemplo, estão entre tendências que podem contribuir para um uso mais saudável do espaço público

As mudanças que a Covid-19 provocou na ocupação do espaço urbano das capitais brasileiras criam uma janela de oportunidade para melhorar as cidades após a pandemia, dizem especialistas. Mas ainda não está claro o quanto prefeituras conseguirão aproveitá-la.

A demanda por mais espaços ao ar livre e a valorização da vida de bairro, por exemplo, estão entre tendências que podem contribuir para um uso mais saudável do espaço público. Para atender a esses anseios, porém, as metrópoles brasileiras precisam atacar o problema histórico da segregação e da desigualdade, dizem urbanistas consultados pelo GLOBO.

As mudanças mais visíveis vieram na esteira do home-office preconizado durante a pandemia — entre elas está a mudança na fisionomia do comércio. A procura por espaços em prédios de escritórios diminuiu. Bares e lojas cederam espaço a comércio eletrônico e restaurantes voltados para entrega. No mercado imobiliário, a busca de residências com espaço interno ganhou importância em relação ao desejo por localização mais central

Há, porém, grandes incógnitas. O home-office veio para ficar? Se muita gente continuar trabalhando de casa, o que acontece com os edifícios de escritório? O transporte público também sofreu forte impacto da redução do número de passageiros. Como equilibrar a balança entre passageiros e preço da passagem?

O arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, professor da USP, avalia que o momento é de poucas certezas. Dependendo do comportamento da pandemia e das pessoas é possível que as cidades passem por grandes alterações, ou retornem à antiga normalidade.

Em função disso, ele integra uma frente que pede o adiamento da revisão do Plano Diretor de São Paulo.

— No meio da pandemia, antes das coisas se reacomodarem, é difícil avaliar como tudo vai ficar. Um exemplo: a consolidação do home office provocaria espaço ocioso em escritórios, o que pode levar à revisão das leis de ocupação do solo. Não é momento de rever um plano estrutural. Deveriam aguardar 2023 — diz Bonduki.

A visão de que o espaço urbano é essencial para a saúde se refletiu na última edição do Congresso Mundial de Arquitetos, sediado pelo Rio de Janeiro neste ano, terminado na última semana com um manifesto que viu na pandemia uma oportunidade para dar ênfase a princípios humanistas do urbanismo: “A boa cidade é aquela que tem como foco a condição humana, o respeito ao ambiente, a valorização do patrimônio natural, histórico e cultural, e densidade demográfica coerente com a oferta e manutenção de serviços públicos essenciais".

— Não existem fórmulas que se adaptem a qualquer lugar do mundo, mas existem princípios — diz o arquiteto Igor de Vetyemy, comissário-geral do evento.

Desigualdade é entrave

Nas periferias, o potencial de adaptação urbanística era menor, o que se refletiu na maior mortalidade por Covid-19. Agora, a estagnação econômica que varre os subúrbios ameaça agravar a desigualdade, um problema que já é o grande entrave para melhoria das cidades.

— A modificação que me parece mais forte na pandemia é político-conceitual, o entendimento de que a cidade é fundamental para a economia, para a política e para a saúde — diz o urbanista Sérgio Magalhães, da UFRJ. — Essa crise atingiu barbaramente a vida urbana. As pessoas continuam em parte reclusas, e isso afeta profundamente não só o comercio de rua, mas atividades culturais, esportivas e a vida coletiva com um todo.

A questão sanitária em favelas, tanto do adensamento como saneamento básico, já era urgente antes da pandemia. Segundo Bonduki, pelo Censo de 2010, em São Paulo, 270 mil pessoas dormiam em cinco ou mais num mesmo dormitório e 3 milhões eram três ou mais.

— No século XIV, a Europa passou por tantas epidemias que a questão sanitária ficou emergente e o poder público teve que tomar uma atitude. Pense num cortiço atual, famílias morando em cômodos, com um banheiro em comum, corredores estreitos... é um “covideiro”. É inadmissível aceitar isso hoje em dia — diz Nabil Bonduki. — Pode parecer coincidência, mas há anos reivindicamos um censo de cortiços e, agora, na semana passada, a prefeitura finalmente publicou edital para isso.

No entanto, diferentemente do que ocorreu no passado, as necessárias mudanças em áreas mais pobres não devem ocorrer como imposição, como alerta a arquiteta e urbanista Claudia Pires, co-coordenadora da Comissão Nacional de Política Urbana do Instituto de Arquitetos do Brasil: — Há uma discussão nos movimentos, nas redes de favela, contratando técnicos para pensar a urbanização, a das casas, e das condições sanitárias. Isso vem com muita força. É uma tendência, mas vai ser provocada por quem de fato sofreu os efeitos. Essa população pressionará o poder público, que não poderá ser autoritário na resposta. Vejo essas mudanças mais por parte da sociedade civil organizada do que pelo poder público.

Em Belo Horizonte, segundo Pires, houve uma mobilização na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal para que os recursos de reparação da Vale pela tragédia em Brumadinho não fossem investidos em obras de infraestrutura para logística metropolitana, mas sim para a moradia de famílias que ficaram desassistidas na pandemia.

Deslocamento em xeque

Além de garantir melhorias na habitação e nas condições sanitárias, há o desafio de garantir o acesso das populações marginalizadas às áreas públicas verdes e ao ar livre. Problema enfrentado mesmo em cidades com oferta razoável desses espaços, como Brasília.

Segundo o urbanista José Carlos Coutinho, professor da UnB, a pandemia escancarou um problema histórico da capital federal. A grande massa populacional nas áreas periféricas não tem acesso a lazer nem a trabalho fora do Plano Piloto, o núcleo central planejado da cidade, e é obrigada a enfrentar a precariedade do transporte público.

— Essas populações tendo que se movimentar para áreas centrais congestionam os ônibus e metrô e não têm como evitar o contato físico — diz o urbanista.

Giselle Moll, secretária de desenvolvimento urbano e habitação do Distrito Federal, reconhece problema como uma demanda história em Brasília e afirma que a cidade também deve rever seu plano diretor em breve, e transformações impostas pela pandemia devem ser levadas em consideração.

Tendências nas cidades pós-Covid

Casa

A tendência anterior, de apartamentos pequenos ou studios, cede lugar à procura por espaços maiores, que permitam trabalhar e passar mais tempo em casa. Áreas de lazer e varandas são valorizadas e os imóveis devem ser mais recuados, com maior circulação de ar e insolação.

Áreas de lazer

Um costume que vinha crescendo e se consolidou foi a maior valorização e uso do espaço aberto para encontros, lazer e atividade física. Assim, aumenta a cobrança sobre o poder público por mais e melhores praças e parques, e pela utilização de áreas que antes eram destinadas aos carros.

Favelas  

A população se organizou internamente para enfrentar os desafios da pandemia e da crise econômica. Organizações civis já buscam com técnicos soluções que serão cobradas do poder público para antigos problemas como falta de saneamento, espaços públicos e intenso adensamento.

Eventos 

O setor de eventos passa por uma forte transformação e deve se reinventar. Congressos e simpósios online vieram para ficar, aproveitando o baixo custo para presença de personalidades nacionais e estrangeiras.  

Comércio 

O comércio online virou rotina enquanto diversas lojas fecharam nas ruas. É preciso se adaptar à internet e aos aplicativos. Mas, com a volta de uma vida mais intensa em bairros, pequenos comércios locais podem voltar a ganhar força.

Calçadas 

As calçadas passaram a ser valorizadas e há demanda para que ganhem mais espaço. O uso particular está sendo repensado para liberação por parte de bares e restaurantes. Além disso, precisam permitir que pedestres se desloquem em maior quantidade mantendo distanciamento.

FONTE: O GLOBO