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19/03/2026

BC reduz Selic em 0,25 ponto, a 14,75% ao ano, no primeiro corte de juros da gestão Galípolo - Folha de São Paulo

Copom confirma plano mesmo com guerra no Irã, mas evita sinalizar seus próximos passos Última queda da taxa básica de juros tinha sido registrada em maio de 2024, sob Campos Neto

Por Nathalia Garcia

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou nesta quarta-feira (18) o ciclo de corte de juros e reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Os dias que antecederam a decisão foram marcados por mudanças nas expectativas do mercado e forte estresse nos juros futuros.

Apesar da turbulência provocada pela guerra no Irã, o colegiado do Banco Central confirmou o plano traçado no encontro anterior, em janeiro, quando sinalizou a intenção de iniciar a redução de juros em março. Foi a primeira queda sob a gestão de Gabriel Galípolo.

Mas o comitê não antecipou quais serão os seus passos futuros e deixou a próxima decisão em aberto, citando "forte aumento da incerteza". Evitou até mesmo palavras como "redução" ou "cortes" e optou por mencionar ciclo de "calibração" da política de juros. A ideia do Copom é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito no Oriente Médio antes de definir os movimentos seguintes.

Votaram 7 dos 9 membros em decisão unânime. Ainda não foram indicados os substitutos dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), cujos mandatos terminaram em 31 de dezembro de 2025.

Cautela (usado três vezes) e incerteza (quatro vezes) foram termos que nortearam a decisão do comitê e deram o tom do comunicado divulgado ao término da reunião.

"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", disse.

Às vésperas do encontro, cresceu no mercado financeiro a aposta de uma redução menor de juros no primeiro movimento, de 0,25 ponto percentual, diante da disparada dos preços do petróleo. Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual.

Levantamento feito pela Bloomberg mostrava que, dentre 30 instituições consultadas, 19 previam queda da Selic para 14,75%, dez projetavam redução para 14,5% e uma acreditava na manutenção da taxa básica em 15% ao ano pela sexta vez seguida.

A mudança na expectativa provocou volatilidade no mercado, com alta na curva de juros futuros. O Tesouro Nacional teve de realizar recompras de títulos para conter a escalada, na maior intervenção em mais de uma década.

Diante da incerteza no ambiente global, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu manter os juros entre 3,5% e 3,75%, pela segunda reunião consecutiva. Agora, a diferença entre os juros dos EUA e do Brasil está em 11 pontos percentuais.

O Copom disse olhar para os impactos futuros do conflito no Oriente Médio, sobretudo os efeitos provocados sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities, que afetam a inflação no Brasil de forma direta e indireta.

De acordo com o colegiado do BC, houve distanciamento adicional das projeções de inflação em relação à meta de 3%. Em seu cenário de referência, a estimativa para este ano saltou de 3,4% para 3,9%. Para o terceiro trimestre de 2027, a estimativa subiu de 3,2% para 3,3% -acima do alvo. Esse é o prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.

O comitê, contudo, reconheceu que a incerteza em relação a suas próprias projeções aumentou consideravelmente, diante da falta de clareza sobre a duração da guerra e de seus impactos.

A tensão global pesou na escolha do BC por um primeiro passo conservador, apesar da pressão crescente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos setores produtivos pela queda dos juros.

"O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais", ressaltou. Além disso, afirmou que o cenário exige cautela por parte de países emergentes, com é o caso do Brasil, pela maior volatilidade dos preços de commodities.

Ao justificar a decisão desta quarta, o Copom disse ver evidências dos efeitos dos juros altos por longo período sobre a desaceleração da atividade econômica e que, por isso, julgou que seria apropriado dar início ao ciclo de queda da Selic.

Segundo o colegiado, foram criadas condições para que "ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta."

Esse foi o primeiro corte da Selic em quase dois anos. A última queda tinha sido registrada em maio de 2024, quando Roberto Campos Neto ainda era presidente do Banco Central.

O alívio naquela época durou pouco e, na sequência, foi executado um ciclo de alta que alçou, em junho de 2025, a taxa básica de juros ao nível de 15% ao ano. Desde então, a Selic tinha ficado estacionada no mesmo patamar.

No comunicado, o Copom ressaltou a trajetória de queda da inflação, destacando "algum arrefecimento". Mas disse também que o indicador se manteve acima da meta. No acumulado de 12 meses até fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) chegou a 3,81%.

O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

Nas últimas semanas, cresceram os riscos sobre os preços no curto prazo. O barril do petróleo chegou a ultrapassar os US$ 110 nesta quarta. Para conter a alta de preços de combustíveis, o governo Lula zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, ao custo de R$ 20 bilhões. Também autorizou um subsídio de até R$ 10 bilhões para bancar parte do preço do diesel.

Em relação à política fiscal, o Copom manteve o tom usado em comunicados anteriores. Ele disse seguir acompanhando seus desdobramentos sobre a política de juros e sobre os ativos financeiros.

Desde a reunião anterior, o câmbio apresentou melhora. A cotação do dólar usada pelo comitê em seus cálculos foi de R$ 5,20 –ante R$ 5,35 no encontro de janeiro.

Para o colegiado do BC, o cenário doméstico continua marcado por expectativas de inflação distantes da meta, projeções elevadas e pressões no mercado de trabalho, que ainda mostra sinais de resiliência.

Segundo os dados coletados pelo boletim Focus, divulgado na última segunda (16), os analistas projetam que o IPCA feche 2027 e 2028 em 3,8% e 3,5%, respectivamente.

O comitê ressaltou que fatores que podem afetar a inflação, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio. Apesar disso, não alterou os elementos listados em seu balanço de riscos.

Entre os vetores que puxariam os preços para cima, destacou a possibilidade de as expectativas de inflação seguirem distantes da meta por período mais prolongado do que o esperado e possíveis impactos provocados por políticas econômicas dentro e fora do Brasil, como um câmbio depreciado de forma mais persistente.

Nessa mesma direção, repetiu a chance de a inflação de serviços se mostrar mais perseverante em função de um hiato do produto mais positivo (quando a economia opera acima do seu potencial e sujeita a pressões inflacionárias).

Entre os fatores que afetariam os preços para baixo, o Copom repetiu o risco de a economia doméstica perder força de forma acentuada e a chance de haver uma desaceleração global mais forte em função de um choque de comércio ou do próprio cenário de incerteza. Além disso, mencionou eventual queda nos preços das commodities.

O colegiado voltará a se reunir nos dias 28 e 29 de abril, no terceiro dos oito encontros previstos para o ano.

FONTE: FOLHA DE SãO PAULO