Por Felipe Morgado
O dado impressiona, mas talvez o aspecto mais relevante para o mercado imobiliário esteja menos no número de anúncios e mais na pergunta que ele desperta: será que esse crescimento pode criar uma nova oportunidade de negócios para as imobiliárias?
Até aqui, grande parte do setor enxergou plataformas como o Airbnb como concorrentes da locação tradicional. Mas, à medida que esse mercado amadurece, talvez faça mais sentido observá-lo por outra perspectiva.
Afinal, por trás de cada imóvel anunciado existe um proprietário que precisa administrar reservas, organizar limpeza, manutenção, atendimento aos hóspedes e toda a operação do imóvel. Trata-se de uma atividade que vem sendo realizada, em muitos casos, por pequenos operadores locais, empresas familiares ou até zeladores que estão se dedicando a este tipo de gestão.
Esse cenário abre uma reflexão interessante. Será que parte dessa operação não pode, no futuro, ser incorporada também pelas imobiliárias?
A hipótese faz sentido porque essas empresas já possuem competências importantes em administração patrimonial, relacionamento com proprietários, processos operacionais e gestão imobiliária. Em vez de disputar espaço com as plataformas digitais, poderiam ampliar seu portfólio de serviços e acompanhar um movimento que parece ganhar escala.
Algumas imobiliárias já começaram a testar esse caminho. O objetivo não é substituir a locação tradicional, mas oferecer ao investidor diferentes alternativas de exploração do seu patrimônio.
Afinal, muitos proprietários não escolhem exclusivamente entre aluguel de longo prazo ou temporada. Eles combinam estratégias, distribuem seus imóveis entre diferentes modalidades e ajustam suas carteiras de acordo com rentabilidade, ocupação e perfil de risco.
Sob essa ótica, administrar imóveis destinados ao aluguel por temporada pode representar uma evolução natural do negócio de administração imobiliária.
Naturalmente, no entanto, esse crescimento também merece atenção. Em diversas cidades do mundo, a expansão acelerada do aluguel por temporada levou à criação de regras mais rígidas para equilibrar seus impactos sobre a oferta habitacional.
No Brasil, o avanço da reforma tributária e o aumento da participação desse modelo podem estimular discussões semelhantes nos próximos anos. Ainda é cedo para afirmar que isso acontecerá, mas trata-se de um tema que merece ser acompanhado de perto pelo setor.
Independentemente da evolução regulatória, a principal provocação permanece. Se o aluguel por temporada continuar crescendo, novas demandas de gestão surgirão junto com ele. E isso pode abrir espaço para que as imobiliárias ampliem seu papel, deixando de atuar apenas como intermediárias da compra e da locação tradicional para se tornarem gestoras completas do patrimônio imobiliário de seus clientes.
Em um mercado cada vez mais orientado por serviços, a próxima grande oportunidade pode estar na capacidade da imobiliária de administrar esse patrimônio em qualquer modalidade de locação que o investidor escolher.