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25/08/2026

Vendas de imóveis crescem 5,3% no segundo trimestre, apesar de juros altos, aponta Cbic – Folha de São Paulo

Resultado é impulsionado pelo desempenho recorde do programa Minha Casa, Minha Vida Estoque cai, mas queda no valor dos lançamentos mostra dificuldade nos segmentos de maior renda

Ana Paula Branco

As vendas de imóveis novos cresceram 5,3% no segundo trimestre deste ano ante o mesmo período de 2025, mesmo com a taxa básica de juros em 14% ao ano, segundo levantamento da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e da Brain Inteligência Estratégica divulgado nesta segunda-feira (24).

Foram comercializadas 113.676 unidades residenciais em 221 cidades pesquisadas. No primeiro semestre, as vendas somaram 226.536 unidades, alta de 5,4% na comparação anual.

Juros altos não interromperam a demanda por moradia, mas a recuperação é desigual: o Minha Casa, Minha Vida amplia sua participação em vendas e lançamentos, enquanto imóveis para a classe média perdem espaço.

Os lançamentos totalizaram 107.161 unidades no segundo trimestre, queda de 1,3% em um ano, mas alta de 2,6% em relação aos três primeiros meses de 2026. Para os especialistas, o ritmo sinaliza que as incorporadoras continuam ativas.

O Sul teve a maior queda nos lançamentos: 17.353 unidades, recuo de 25,1% em um ano e de 11,7% ante o primeiro trimestre. Segundo Celso Petrucci, conselheiro da Cbic e economista-chefe do Secovi-SP, a menor oferta do Minha Casa, Minha Vida expõe a região ao crédito caro e à demanda por imóveis mais caros.

A diferença entre vendas e lançamentos ajudou a reduzir o estoque. A oferta disponível terminou junho em 355.290 unidades, recuo de 2,1% ante o trimestre anterior. O prazo estimado para a venda de todo o estoque caiu de 9,9 meses no primeiro trimestre para 9,5 meses.

O levantamento, que mapeou as condições de mercado em 221 cidades espalhadas pelo país, aponta que a demanda reprimida e as linhas de crédito habitacional continuam dando sustentação a um dos principais motores do PIB (Produto Interno Bruto) nacional.

Segundo a Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança), o crédito imobiliário deve fechar 2026 com cerca de R$ 411 bilhões em concessões, acima do esperado.

Minha Casa, Minha Vida puxa crescimento

O principal motor das vendas é a habitação popular. No segundo trimestre, 62.129 das 107.161 unidades lançadas estavam enquadradas no Minha Casa, Minha Vida (58% do total), a maior participação da série histórica do levantamento, iniciada em 2019.

"Se continuar essa taxa de juros a dois dígitos, acredito que vamos chegar a 64% do Minha Casa, Minha Vida", afirmou Petrucci durante a apresentação dos indicadores imobiliários.

Foram 58.392 unidades vendidas do programa, ante 55.284 dos segmentos de médio e alto padrão.

A concentração ajuda a explicar por que o número de imóveis comercializados cresce mesmo em um ambiente de juros elevados. O programa oferece condições subsidiadas para quem financia e recursos do FGTS, reduzindo a exposição direta do comprador à Selic.

Ao mesmo tempo, o efeito da concentração em imóveis mais baratos aparece nos indicadores financeiros. O VGL (Valor Geral de Lançamentos) caiu 23,1% no segundo trimestre, para R$ 62,4 bilhões, ante R$ 81,7 bilhões um ano antes. O VGV (Valor Geral de Vendas) recuou 5,5%, para R$ 66 bilhões.

A força do programa se concentra principalmente nas regiões Norte, Sudeste e Nordeste. No Norte, o Minha Casa, Minha Vida lidera com 68% dos lançamentos (1.864 unidades) e 67% das vendas (2.463 unidades) do trimestre. No Sudeste, que responde pela maior fatia absoluta de mercado, o Minha Casa teve participação de 66% nos lançamentos (39.273 unidades) e de 58% nas vendas (33.159 unidades).

Essa disparidade também se reflete nos estoques, com a participação do programa na oferta final disponível, variando de 51% no Norte e 48% no Sudeste até apenas 17% no Sul.

Novas fontes de recursos ganham espaço

O avanço das vendas ocorre paralelamente a uma mudança na estrutura de financiamento do setor.

No primeiro semestre, os financiamentos do SBPE (com recursos vindos da poupança) para aquisição e construção somaram R$ 93,7 bilhões, alta de 29% sobre um ano antes. O crédito para construção, contratado por empresas, mais que dobrou, para R$ 26,5 bilhões, alta de 107%. Já o financiamento para aquisição por pessoas físicas avançou 12%, para R$ 67,2 bilhões.

O resultado é relevante porque o SBPE é uma das principais fontes de crédito para os segmentos de renda média e alta, justamente os mais expostos ao encarecimento do financiamento.

A expansão ocorre enquanto o sistema passa por uma transição para reduzir a dependência da poupança. O novo modelo de funding, que entra em vigor integralmente a partir de 2027, amplia o papel de instrumentos como LCIs e recursos captados no mercado.

O problema é que a taxa básica elevada encarece as fontes alternativas de recursos. Bancos já discutem com o Banco Central uma revisão do teto de 12% ao ano para financiamentos enquadrados no SFH (Sistema Financeiro de Habitação), sob o argumento de que o custo de captação pode tornar algumas operações pouco atrativas.

"Nós somos a melhor operação que um banco pode ter para pessoa física. Nós somos o menor índice de inadimplência que o banco tem. Nós somos a melhor carteira, com a menor inadimplência e a melhor garantia, que é a garantia imobiliária", diz Petrucci.

Demanda segue forte

O levantamento mostra que o interesse futuro pela compra de imóveis permanece elevado. A intenção de compra alcançou 52% dos entrevistados, o maior nível da série histórica e três pontos percentuais acima de um ano antes.

Entre os que pretendem comprar, 31% dizem que devem fechar o negócio em até um ano e 37% entre um e dois anos.

O tipo de imóvel mais cobiçado é o apartamento (40%), seguido de perto por casas de rua (38%) e por casas em condomínio fechado (17%), segundo levantamento da Brain.

Sair do aluguel é o principal motivo, citado por 37% dos interessados. Mudanças familiares, como sair da casa dos pais, casamento ou separação, respondem por 27%. Outros 20% mencionam a busca por mais espaço ou a necessidade de melhorias na moradia.

A intenção elevada ajuda a explicar a redução dos estoques. No Minha Casa, Minha Vida, o prazo estimado de venda da oferta disponível é ainda menor: 7,6 meses.

FONTE: FOLHA DE SãO PAULO