Por Letícia Furlan
A Uber alugou 15.982 m² no edifício JK Square, na região da JK. Já a Wise ocupou 14.184 m² no River South, na Marginal Pinheiros. Juntas, as operações concentraram parte relevante da absorção do período, bem acima da média do mercado.
“São dois grandes destaques. O resto das locações ficou abaixo de 6 mil metros quadrados”, afirma Matheus Cardoso, presidente da Cushman para a América do Sul.
A Wise confirmou que a expansão acompanha o crescimento da operação no Brasil. No ano fiscal encerrado em 31 de março de 2025, a empresa registrou alta de 45% na base de clientes no país, com 3 milhões de cartões emitidos. “E em julho do ano passado expandimos nosso escritório de São Paulo para servir de full-stack hub para a América Latina. Desde lá, mais que dobramos nosso quadro de funcionários”, informou a companhia.
A Uber, por sua vez, destacou que o novo espaço será dedicado ao Tech Center, complementando o escritório atual em Pinheiros, que seguirá como sede da empresa no Brasil.
Indicadores mostram retomada seletiva
O movimento impactou diretamente os indicadores do trimestre. A absorção líquida foi positiva em 62.555 m², enquanto o volume total de locações atingiu 88.452 m². A taxa de vacância recuou para 11,38%, aproximando-se do nível de equilíbrio.
Apesar disso, a queda não é homogênea.
“A vacância tem caído não pelo mercado inteiro de São Paulo. O que tem puxado a vacância média para baixo são os mercados premiums. Ativos obsoletos vão continuar sofrendo, infelizmente, porque o mercado está seletivo”, diz Cardoso.
O fenômeno reflete o movimento de flight to quality, com empresas priorizando edifícios modernos, eficientes e bem localizados.
Eixos consolidados e transbordo da Faria Lima
A região da JK liderou a absorção líquida, com 19.276 m², impulsionada pela entrada da Uber. Na Marginal Pinheiros, a vacância caiu para 27,22% após a ocupação da Wise.
Segundo Cardoso, a dinâmica do mercado continua fortemente ancorada na Faria Lima.
“A Faria Lima é [essencial para o mercado imobiliário corporativo] e ainda vai continuar por muito tempo. Tudo que acontece é reflexo dela”, afirma.
O crescimento de regiões como Rebouças e Chucri Zaidan segue a lógica de transbordo.
“A Rebouças é um transbordo da Faria Lima, inevitavelmente. Você vê empresas que precisam de grandes áreas indo para a Chucri Zaidan e tentando encontrar equilíbrio no preço… sem perder a qualidade.”
Enquanto a Faria Lima mantém valores elevados, de R$ 290,19/m², regiões como Chucri Zaidan e Marginal Pinheiros ganham espaço ao oferecer maior escala e preços mais competitivos.
Preços, oferta e novos projetos
O preço médio de locação fechou o trimestre em R$ 138,35/m², com leve ajuste. Ativos premium seguem valorizados, enquanto regiões como Pinheiros e Paulista registraram alta, impulsionadas por novos empreendimentos e reposicionamento.
No período, foram entregues 17.745 m², gerando oscilações pontuais na vacância. Para os próximos meses, o mercado tende a ficar mais competitivo, com 352.912 m² em construção, concentrados em regiões como Chucri Zaidan, Pinheiros e Itaim.
Brasil como eixo do mercado regional
O desempenho de São Paulo reforça o protagonismo do Brasil no mercado imobiliário corporativo da América Latina.
“Brasil é o nosso grande eixo, é o grande mercado de real estate na América do Sul, é o que puxa, o mais desafiador e o que mais tem campo para crescimento”, afirma Cardoso.
Segundo ele, o movimento de migração para ativos de maior qualidade ainda está em estágio menos avançado em outros países da região.
“A Argentina ainda briga muito por vacância e preço… pela consequência macroeconômica que a gente já passou, que levou o Brasil para a qualidade”, diz.
O cenário macroeconômico contribui para essa dinâmica. O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025, enquanto a taxa Selic recuou para 14,75% ao ano em março de 2026.
“Não vemos mais a euforia de antes. É um mercado de execução, mais disciplinado e criterioso”, conclui.
Impactos para o mercado imobiliário
Para incorporadores, o cenário reforça a importância de investir em ativos de alto padrão e bem localizados. Projetos obsoletos tendem a enfrentar maior dificuldade de ocupação.
Corretores e imobiliárias devem concentrar esforços em regiões premium e eixos de expansão, onde há maior liquidez e demanda qualificada.
Investidores encontram oportunidades em ativos de qualidade e em regiões de transbordo da Faria Lima, que equilibram preço e potencial de valorização.
Para ocupantes corporativos, o momento favorece decisões estratégicas de upgrade, aproveitando ainda alguma flexibilidade de preços fora dos eixos mais consolidados.