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30/04/2026

Selic cai para 14,50% e novos cortes dependem da guerra – Valor Econômico

BC evita se comprometer com mais reduções na taxa básica de juros e reconhece piora no cenário de inflação

Por Gabriel Caldeira, Arthur Cagliari e Gabriel Shinohara

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) confirmou a expectativa da ampla maioria de economistas e participantes do mercado ao reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual em decisão unânime nesta quarta-feira, a 14,50%. O comunicado que acompanhou a decisão, porém, foi interpretado como conservador e abriu espaço para que o ciclo de flexibilização dos juros seja interrompido em breve.

Em meio ao choque de oferta de petróleo por conta da guerra no Oriente Médio, o Copom reforçou o aumento das incertezas e a piora do quadro inflacionário. A projeção do colegiado para o horizonte relevante da política monetária sofreu revisão relevante, passando de 3,3% no terceiro trimestre de 2027 para 3,5% no quarto trimestre do ano que vem.

“Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados”, diz o comunicado do Copom divulgado ontem.

Para Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, o comunicado foi duro e evidenciou o fato de que o ciclo de cortes da Selic depende do andamento da guerra no Oriente Médio.

“O texto veio mais duro, no sentido de que a autoridade não quis se comprometer com nada, nem com a extensão do ciclo de cortes, nem com o ritmo desse ciclo”, diz. “A verdade é que a cada dia que passa fica mais difícil para o BC continuar a fazer reduções da Selic porque o desfecho da guerra é muito incerto.”

Na avaliação da economista, por não ter encerrado o ciclo agora, a autarquia deixa a mensagem de que irá continuar cortando a taxa básica nas próximas reuniões, mas de forma cautelosa. “Por enquanto não vamos alterar nossa projeção [de Selic a 12,50% no fim do ano]. Mas isso vai depender muito mais do andamento da guerra do que da comunicação do BC”, afirma. “Estamos em uma semana muito ruim, sem indicações de que há qualquer tipo de negociação entre Estados Unidos e Irã. Se por acaso isso mudar, a perspectiva de cortes continua presente.”

Corte de 0,5 ponto em junho, que ainda havia alguma possibilidade de acontecer, a princípio sai da mesa”

- Felipe R. Oliveira

Para Rafael Cardoso, economista-chefe do banco Daycoval, o comunicado foi duro a ponto de indicar a possibilidade de pausa do ciclo de cortes da Selic. Ele destaca o aumento significativo da projeção de inflação do BC, o que o surpreendeu, uma vez que esperava manutenção da projeção em 3,3%.

Apesar da piora do quadro inflacionário com a guerra no Oriente Médio, fatores como a apreciação do real desde a reunião anterior do Copom, a rolagem do horizonte do terceiro para o quarto trimestre do ano que vem e a expectativa por uma Selic mais alta no relatório Focus poderiam compensar a perspectiva de IPCA mais elevado no curto prazo.

Para Felipe Rodrigo Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, a mudança da projeção de inflação de 3,3% para 3,5% é um sinal do Copom ao mercado. Ele também esperava a manutenção da projeção em 3,3%, com possibilidade de aumento para 3,4%, e por isso diz ter sido surpreendido.

Diante das sinalizações mais conservadoras do Copom no comunicado de ontem, a possibilidade de aceleração do ritmo de cortes para 0,5 ponto percentual, por ora, não é plausível, aponta Oliveira.

“O corte de 0,5 ponto em junho, que ainda havia alguma possibilidade de acontecer, a princípio sai da mesa. Em junho, o Copom deve ficar entre outro corte de 0,25 ponto e a manutenção [da Selic]”, opina o economista. Embora ainda não tenha alterado a sua projeção de que a Selic terminará o ano em 13%, Oliveira diz que há, sim, um viés de juros mais altos.

Cardoso, do Daycoval, tem opinião similar e afirma que a sua expectativa de cortes sequenciais de 0,25 ponto até o fim do ano - para uma Selic de 13,25% - está ameaçada diante da sinalização de que o ciclo pode ser interrompido.

Além da elevação da projeção de inflação no horizonte relevante, ele destaca a inclusão à menção sobre potenciais efeitos secundários do choque do petróleo no balanço de riscos do Copom. Nesse sentido, o comitê enfatizou a sua preocupação com a possibilidade de desancoragem das expectativas de inflação de prazos mais longos, segundo Cardoso.

De visão mais pessimista em relação à maioria do mercado, o economista-chefe da Adam Capital, Juliano Cecílio, entende que a decisão de cortar a Selic mostra que o BC não está dando peso aos fatores que alimentam a inflação neste momento.

“A inflação não é o objeto de reação do BC neste momento. Isso fica claro quando você observa que ele subiu a projeção para a inflação no horizonte relevante; reconhece um repique da atividade neste começo de ano; e uma piora na inflação corrente e nas medidas subjacentes”, diz o economista. “O BC trabalha com uma ‘torcida’ de que o choque de oferta melhore rápido, mas é preciso lembrar que há também um choque de demanda. A verdade é que mesmo antes da guerra não era prudente iniciar os cortes. Basta olhar para os números do mercado de trabalho e os indicadores de atividade. A economia está sobreaquecida.”

Na leitura de Cecílio, o ciclo de cortes da Selic não deve se estender por muito tempo. “Ainda não parei para pensar como vai ser o ciclo no médio e longo prazo. Por essa comunicação, a sensação é que o BC deve cortar mais uma ou duas vezes. Mas uma política de cortes por mais tempo não é sustentável”, afirma. “Se a inflação voltar a ser o objeto de função de reação, o BC pode ter que voltar até a subir os juros, ainda que esse cenário seja de probabilidade muito baixa.”

 

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FONTE: VALOR ECONôMICO