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05/10/2022

Poupança sofre resgate histórico de R$ 133,6 bilhões (Valor Econômico)

Nunca o saldo dos depósitos feitos na caderneta havia caído tanto em tão pouco tempo

Os brasileiros nunca retiraram tanto dinheiro da caderneta de poupança como nos últimos meses. Os resgates acumulados até o dia 28 de setembro de 2022 atingiram o recorde de R$ 133,6 bilhões, contados desde que o saldo dos depósitos chegou ao ponto máximo, de R$ 1,05 trilhão, no dia 6 de agosto de 2021. Os saques equivalem a 12,7% sobre o saldo de depósitos no início do período.

 

No mesmo intervalo, os rendimentos creditados às contas somaram R$ 68,3 bilhões, o equivalente a 6,5% do saldo dos depósitos no início do período. Ainda assim, houve queda recorde de 6,3% do montante depositado, somando captação e rendimentos, na caderneta nesses 14 meses. Nunca o saldo dos depósitos na poupança encolheu tanto e em tão pouco tempo.

 

Um conjunto de fatores contribuiu para os recordes negativos. Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, avalia que esse resgate histórico teve origem na pandemia. Ele diz que os depósitos na caderneta dispararam durante a crise de covid-19 porque uma fatia da população estava em casa, deixando de consumir e poupando mais. “O consumo caiu mais do que a renda e sobrou dinheiro para as famílias”, diz.

 

De fato, entre meados de 2016 e março de 2020, antes da pandemia, o saldo dos depósitos da caderneta de poupança, somando captação e rendimentos, crescia em um ritmo constante, de 8,1% ao ano. A partir de abril de 2020 até o começo de agosto de 2021, a taxa de crescimento saltou para 14,7% ao ano.

 

Agora, avalia Honorato, com o fim do isolamento social, uma parcela da população está sacando recursos da caderneta para voltar a consumir, o que ajuda a explicar esse movimento. “O consumo está crescendo perto da renda ou mais”, diz.

 

Ainda segundo Honorato, o fato de o governo ter distribuído dinheiro para as pessoas mais necessitadas por meio de programas sociais como o Auxílio Emergencial também contribuiu para que os depósitos na poupança saltassem. De acordo com os dados do Tesouro Nacional, as despesas do governo central relacionadas a esse benefício social atingiram R$ 237 bilhões entre abril e setembro de 2020.

 

A Caixa foi a instituição financeira que operacionalizou o pagamento do Auxílio Emergencial, feito na poupança, por meio do aplicativo Caixa Tem. Isso levou a um aumento do volume e da quantidade de contas de poupança de baixo valor.

 

Os números do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) mostram que o saldo dos depósitos na poupança com aplicações com valores de até R$ 5 mil cresceu 55% nesse intervalo. Enquanto isso, a quantidade de contas nessa faixa aumentou 36%.

 

Uma parte dos depositantes usa a caderneta como conta corrente e não como investimento. Essa é a constatação de Leonardo Siqueira, superintendente de investimentos do Santander. Ele afirma que, no banco, quase metade dos clientes da poupança faz mais de quatro movimentações ao mês, o que indica que eles usam a caderneta como uma ferramenta de fluxo de caixa, aproveitando que ela é isenta de Imposto de Renda.

 

“Nem todo mundo que está na poupança é investidor. Muitos aplicam e resgatam várias vezes ao longo do mês e usam a caderneta apenas para separar o dinheiro ou para transferi-lo para outras instituições financeiras”, afirma. Em geral, esses clientes possuem conta em mais bancos e corretoras, e transferem o dinheiro para eles mesmos ou para pessoas próximas.

 

Entre as pessoas de maior renda, com valores acima de R$ 100 mil na poupança, o saldo de depósitos e a quantidade de contas também cresceram consistentemente de abril a setembro de 2020.

 

Além da poupança forçada devido ao fechamento das atividades econômicas por causa das medidas de isolamento social, o período da pandemia foi muito turbulento para os ativos financeiros.

 

Em um primeiro momento, o susto dos investidores de alta renda com as quedas do mercado estimulou a migração de recursos para a poupança. “A poupança é um instrumento que os brasileiros conhecem e em que confiam”, afirma Siqueira.

 

Porém, à medida que o Banco Central aumentou os juros para combater a inflação, cresceu a diferença da rentabilidade das demais aplicações de renda fixa em relação à poupança. Esse também foi um dos motivos para os resgates históricos da caderneta.

 

“Os clientes começaram a questionar e a buscar aplicações financeiras melhores, e a poupança é um investimento ruim. O risco dela é parecido com o de um CDB, LCI ou LCA [letras de crédito imobiliário e do agronegócio, respectivamente], que oferecem rendimentos maiores”, diz Lucas Queiroz, estrategista de renda-fixa do Itaú BBA.

 

Além disso, a inflação comprometeu a renda e levou as pessoas a sacar dinheiro da poupança para recompor parte do orçamento. “A alta dos preços, especialmente dos alimentos, e do endividamento da população casam com a hipótese de que o resgate da poupança é para recompor a renda. As pessoas estão com menos capacidade de tomar crédito em meio ao aumento de juros e estão precisando de dinheiro”, afirma.

 

Queiroz avalia que o cenário para a poupança é desafiador e que os resgates são um incentivo para o setor financeiro buscar alternativas de captação de dinheiro para o crédito imobiliário. “Os saques devem impulsionar o mercado a desenvolver fontes de financiamento imobiliário.”

 

Matéria publicada em 05/10/2022

FONTE: VALOR ECONôMICO