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23/06/2026

Piora da inflação exigiria 'variações abruptas' na direção e magnitude da Selic, mostra ata do Copom – Folha de São Paulo

BC optou por condução mais suave de juros ao mirar antecipadamente primeiro trimestre de 2028 Na última quarta (17), comitê cortou taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano

Por Idiana Tomazelli

A piora nas projeções de inflação exigiria "variações abruptas de direção e de grande magnitude" na taxa básica de juros (Selic) para colocar a inflação na meta, mas o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu adotar uma trajetória mais suave, mostra ata divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (23).

"O comitê debateu que esse conjunto de resultados deve ser ponderado à luz das melhores práticas de política monetária, recomendando não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes", diz a ata, citando as consequências dos conflitos no Oriente Médio e os impactos do El Niño.

Na última quarta-feira (17), o Copom fez o terceiro corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano, embora a própria autoridade monetária tenha reconhecido uma piora nas expectativas para a inflação.

Para justificar a decisão, o BC optou por olhar de forma antecipada para as projeções do primeiro trimestre de 2028, o que permitiu uma condução mais suave dos juros. A escolha, no entanto, gerou ruído no mercado, que a interpretou como sinal de maior tolerância com inflação acima da meta.

No cenário de referência do Copom, a projeção de inflação piorou de 4,6% para 5,2% neste ano e de 3,5% para 3,7% em 2027 -ambas acima da meta de 3% ao ano.

O BC ainda incluiu os estímulos à demanda agregada (sobretudo ao consumo) como um fator de risco para a alta de preços, o que foi lido como alusão às medidas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para estimular o crédito -muitas delas com juros subsidiados, o que atrapalha a eficácia da política monetária na desaceleração da atividade e dos preços.

Ainda assim, o BC manteve a trajetória de redução da Selic e decidiu olhar de forma antecipada para as projeções do primeiro trimestre de 2028, que só passariam a ser o alvo oficial da política monetária na próxima reunião do Copom, em agosto.

Na reunião de junho, o chamado "horizonte relevante", que deve ser levado em consideração nas decisões e reflete o tempo necessário para que os juros façam efeito, era o último trimestre de 2027.

Ao justificar a escolha, o Copom disse que a taxa de juros necessária para levar a inflação à meta no fim de 2027 poderia derrubar o índice para menos de 3% no primeiro trimestre de 2028. No entanto, o comunicado não detalhou suas projeções para esse horizonte de tempo.

A maior parte do mercado já esperava um novo corte na Selic em junho, mas o comunicado acabou gerando ruído diante da percepção de maior tolerância do BC com inflação acima da meta.

O alvo central é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No atual modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

O Copom voltará a se reunir nos dias 4 e 5 de agosto, no quinto dos oito encontros previstos para o ano.

FONTE: FOLHA DE SãO PAULO