Os preços dos imóveis devem seguir a tendência de aumento em 2026 mesmo com queda na taxa de juros. Segundo especialistas, os motivos são a progressiva escassez de terrenos em áreas desejadas pelos consumidores, a inflação dos custos de construção, a falta de mão de obra qualificada e um repasse de preços que antes de cortes na Selic seria inviável, porque os compradores não poderiam arcar com as parcelas.
Em 2025, o Índice FipeZap mostrou um aumento de 6,22% de janeiro a novembro nos preços dos imóveis no País, e de 6,92% em 12 meses. O preço médio do metro quadrado ficou em R$ 9.585. O crescimento é acima da inflação do período, que foi de 5,17%. Em São Paulo, principal mercado do setor imobiliário nacional, o preço do metro quadrado está em R$ 11.882, um aumento de 4,4% em 2025 e de 4,93% em 12 meses até novembro. O índice é composto por anúncios de imóveis usados.
A consultoria de inteligência de dados Brain, que monitora o mercado de lançamentos de imóveis, indica que o preço dos imóveis na cidade de São Paulo estava em R$ 15,8 mil por metro quadrado em outubro, ante R$ 14,7 mil um ano antes.
Para Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain, algumas cidades do País podem ter dificuldade para aumentar preços porque já subiram muito nos últimos anos. “Esse é o caso de Curitiba e Porto Alegre, por exemplo. Agora, Goiânia e Fortaleza são cidades com espaço para subir preços. Em São Paulo, tem espaço, mas não tanto. Depende muito da região e da tipologia, porque tem região que teve um monte de lançamentos”, afirma Araújo.
Na visão de Carlos Honorato, professor de economia na FIA Business School, mesmo com as turbulências inerentes a um ano eleitoral, a tendência de aumento gradual de preços de imóveis observada nos últimos anos deve se manter em 2026.
“Provavelmente, teremos um cenário em que o governo tente abrir torneiras para se reeleger. Medidas mais popularescas para crédito ou pressão para baixar juros podem manter o mercado aquecido. A menos que haja uma crise internacional, a tendência é ter um crescimento e os preços sigam a tendência atual”, afirma Honorato.
Visão das empresas
As empresas do mercado imobiliário avaliam o ano de 2026 como positivo para os negócios. O ano será o primeiro completo a contar com a faixa 4 do programa Minha Casa Minha Vida e com o novo compulsório da poupança destinado ao crédito imobiliário. As duas medidas são voltadas para a classe média, que tem a maior dificuldade de comprar imóveis atualmente.
O CEO da incorporadora de alto padrão AW Realty, Cláudio Carvalho, afirma estar otimista com o mercado imobiliário em 2026 e que os preços devem acompanhar a inflação, sem motivos para aumentos súbitos.
“Acredito que tanto no alto padrão - nosso principal segmento de atuação -, quanto na produção para as rendas média e média-alta - que irá se beneficiar de medidas anunciadas pelo governo, como o aumento gradual da disponibilidade do dinheiro da poupança para a habitação - haverá demanda consistente por imóveis”, diz Carvalho.
O executivo afirma ainda que a AW Realty atingiu, pela primeira vez, R$ 1 bilhão anual em Valor Geral de Vendas (VGV) lançado no ano de 2025. Para o ano que vem, a expectativa é de que o desempenho seja semelhante. “Mas é possível termos algum crescimento, levando em conta a expectativa de queda da Selic dos atuais 15% para 12% ao ano”, diz.
Para Bruno Sindona, presidente do Instituto das Cidades e fundador da holding Sindona, há uma tendência de estabilização de preços de imóveis para a classe média. “Podemos começar a ver descontos partindo das incorporadoras. As incorporadoras de médio padrão estão muito endividadas e querem liquidar os estoques com velocidade. Já estamos vendo hoje descontos em imóveis prontos porque as construtoras precisam quitar seus financiamento e baixar o nível de endividamento”, afirma Sindona.
O empresário, especializado no segmento de moradia popular, diz ainda que os projetos econômicos devem ter um leve aumento de preço em 2026 devido ao aumento do financiamento da Caixa com recursos do FGTS. Um dos principais motivos para isso é o aumento de custo de mão de obra na construção civil. “Acredito também que ainda veremos um forte aumento de aluguéis porque o financiamento está mais difícil”, afirma.
Para os terrenos, considerados a matéria-prima das incorporadoras, a expectativa do mercado é de que a demanda e os preços sigam uma tendência de alta como observada em 2025.
Segundo Thomaz Brancati, sócio da Allrea, plataforma especializada em terrenos para empreendimentos, uma tendência para 2026 e para os próximos anos é a procura de áreas para incorporação imobiliária em cidades médias, com mais de 100 habitantes, e em regiões em fase de expansão urbana. “Embora apresentem um volume menor de lançamentos, essas cidades possuem déficit habitacional relevante e menor nível de concorrência entre incorporadoras”, afirma Brancati.
O especialista diz ainda que a demanda por terrenos no País terá razões distintas. No caso do Nordeste, diz, a maior demanda é para empreendimentos de multipropriedade - nos quais mais de 20 proprietários podem comprar um mesmo apartamento e têm direito de usar por uma semana ao ano -, enquanto no Sudeste a procura por terrenos será impulsionada pela incorporação imobiliária residencial, de olho em maior potencial de retorno financeiro, especialmente na cidade de São Paulo.