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16/06/2026

O que mudou desde a última reunião do Copom e do Fed que pode influenciar as decisões desta semana? - Estadão

Entre inflação resistente no Brasil e emprego forte nos EUA, mercado chegou a apostar em novas altas de juros; chance de fim da guerra surge como alívio pontual

Por Luíza Lanza

Os quase 50 dias que separam a última reunião de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos, no fim de abril, dos encontros desta quarta-feira (17) foram marcados por mudanças relevantes na leitura sobre inflação e juros em ambos os países.

O período foi de idas e vindas nas expectativas macroeconômicas, com indicadores acima do esperado e maior cautela em relação aos próximos passos dos bancos centrais. Tudo isso em meio a um ambiente de elevada volatilidade nos mercados.

Boa parte da piora tem a ver com a continuidade do conflito entre Estados Unidos e Irã. Ainda que a semana tenha começado com a notícia de que a administração de Donald Trump anunciou a possibilidade de novo acordo de paz para normalizar a passagem de petróleo no Estreito de Ormuz, os mais de 100 dias de guerra deixaram de ser lidos como um ruído geopolítico de curto prazo pelo mercado.

A disparada da commodity colocou a economia global em um choque de oferta, começando a contaminar os indicadores de inflação de diversos países, em um momento em que muitos bancos centrais já enfrentavam dificuldade de fazer os indicadores convergirem para as metas estipuladas.

Essa virada de chave fez o mercado precificar juros mais altos por mais tempo nas economias globais, ampliando as incertezas sobre as decisões, mas principalmente sobre as comunicações desta Superquarta.

“Fica a expectativa de como tais bancos centrais agirão frente aos desafios inflacionários: se promoverão ajustes mais proativos em termos de magnitude ou se preferirão passos menores, tentando acomodar no tempo (e será necessário agora muito mais tempo) as distorções inflacionárias, o crescimento e o consumo”, diz Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos.

Além da guerra, tanto os EUA quanto o Brasil chegam na decisão de política monetária com piora dos números de inflação. Por lá, o mercado de trabalho forte acendeu um alerta. Por aqui, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) também superou as projeções, com o fiscal ajudando a pressionar as expectativas para os próximos anos.

Nos EUA, o desafio do mercado de trabalho

Nos Estados Unidos, o consenso é que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai manter a taxa de juros no atual intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano. Mas desde abril as apostas sobre o futuro da Fed Funds variaram muito. Se no início do ano havia a expectativa que o BC americano poderia cortar os juros em algum momento do ano, agora há risco de o ajuste ser para cima.

A principal novidade desde abril foi o mercado de trabalho. A economia americana já dava sinais de força e resiliência há meses, mas o payroll de maio surpreendeu com uma criação de 172 mil vagas de trabalho, bem acima das expectativas que indicavam 80 mil postos, além de uma revisão de quase 100 mil para os últimos dois meses.

Marcela Rocha, CIO da Avenue, explica que esse quadro de uma economia americana forte não é novidade e já vinha acontecendo ao longo dos últimos meses. Mas essa força não era acompanhada de uma surpresa no mercado de trabalho. “Esse cenário, junto com a inflação, mostra que o Fed deve adotar um tom um pouco mais duro no seu comunicado”, diz.

A Avenue não acha que o Fed precisará subir os juros este ano, como parte do mercado passou a precificar desde o fim de maio.

Dados da ferramenta de monitoramento do CME Group vem desde o último mês mostrando que há apostas em um ajuste para cima na taxa americana já para outubro. Ainda em maio, os rendimentos dos Treasuries longos, de 30 anos, atingiram o nível mais alto desde 2007, indicando a percepção do mercado de juros mais altos por mais tempo.

Rocha destaca que, ainda que o mercado de trabalho esteja mais apertado, os salários não mostraram aceleração. Como o Fed tem um mandado duplo e precisa olhar também para esses dados - ao contrário do Brasil, onde a missão do Banco Central é perseguir apenas a meta de inflação -, o alívio do preço do petróleo pode dar tempo para a instituição avaliar os novos números de inflação sem precisar de um ajuste imediato de juros.

Mas a corretora também não vê espaços para cortes em 2026, o que já é por si só uma mensagem relevante e pode impactar os mercados nos próximos meses.

No Brasil, um corte com cautela

No Brasil, o consenso indica um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic, o terceiro desta magnitude desde que o ciclo de afrouxamento monetário começou em março deste ano. Se confirmado, isso levará os juros brasileiros para 14,25% ao ano.

Mas o caminho até esta reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) também não foi simples.

Nas última semanas, além da continuidade da guerra, o risco fiscal voltou ao radar com a aprovação de um pacote de “medidas-bomba” no Senado, que se colocadas em prática vão pressionar ainda mais as contas públicas. Esse combo fez a curva de juros futuros abrir muito. Sete dias antes da reunião do Copom começar, a curva precificava não só o fim do ciclo de afrouxamento monetário, como novas altas de juros até o fim do ano.

O possível fim da guerra no Oriente Médio deu alívio a essas apostas mais pessimistas, mas não resolve o principal: a deterioração no cenário de inflação no País, com reaceleração da atividade doméstica em meio a medidas de estímulo à economia e a nova apreciação do dólar frente ao real.

A projeção para o IPCA no Boletim Focus para 2026 vem de 14 semanas consecutivas de alta, cada vez mais distante da meta de 3%, mas a principal preocupação está na desancoragem das expectativas para 2027 e 2028.

A Suno Research espera por um novo corte de 0,25 p.p na Selic, mas atribui cerca de 45% de probabilidade à manutenção da taxa já nesta reunião graças a essa piora.

“Três pontos concentram a atenção: o risco de um choque passageiro se tornar permanente; uma nova piora das expectativas de inflação; e a leitura, pelos agentes econômicos, de um Banco Central mais tolerante com a meta, o que desgastaria a credibilidade conquistada nos últimos ciclos. Esse conjunto de fatores explica a cautela cada vez maior”, diz Gustavo Sung, economista-chefe da Suno.

A XP Investimentos também espera por um corte de 0,25 p.p e diz que não se surpreenderia se o BC brasileiro optasse por interromper o ciclo de ajustes após a decisão de quarta-feira. “O cenário de inflação ficou ainda mais desafiador, colocando os bancos centrais - incluindo o brasileiro - em uma posição difícil”, explica.

“Choques de oferta pressionaram a inflação corrente e as expectativas inflacionárias globalmente, mesmo com a queda recente nos preços do petróleo. O ambiente é particularmente desafiador em países onde a inflação já estava acima da meta e a política fiscal tem caráter expansionista, como nos EUA e no Brasil.”

Em relatório, o time de economistas da corretora destaca que a manutenção dos juros já nesta semana não pode ser descartada diante de todo esse cenário. Mas não é o cenário-base, tendo em vista que, desde a última reunião, os membros do Copom “praticamente não alteraram” a comunicação oficial e as condições de mercado melhoraram nos últimos dias, especialmente com o alívio no Oriente Médio.

FONTE: ESTADãO