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02/06/2026

Nas obras, falta mão de obra. Sobram soluções de AI – Metro Quadrado

A dificuldade para encontrar pedreiros e engenheiros, as margens mais apertadas e a pressão para reduzir desperdícios estão criando uma nova geração de startups para a construção civil.

Por Thais Soares

Depois de uma primeira onda focada em digitalizar contratos, documentos e processos administrativos, as construtechs começaram a avançar para problemas do canteiro.

A nova leva inclui empresas que usam inteligência artificial para acompanhar o avanço físico das obras, soluções que ajudam incorporadoras a acessarem financiamento e startups que desenvolvem tecnologias para construção off-site.

O Secovi-SP - que hoje conta com 62 startups entre seus associados - e vários desses negócios foram criados por engenheiros que já conviviam com esses problemas.

“Essa segunda onda tem muito a ver com financiamento, porque a medição de obra ajuda os credores a acompanharem o que está acontecendo, em vez de só ver no final, quando está atrasado,” Rodrigo Abrahão, o vice-presidente de empreendedorismo e inovação do Secovi-SP, disse ao Metro Quadrado.

A Construct IN, por exemplo, desenvolveu uma plataforma que usa imagens, drones e modelos tridimensionais para registrar a evolução dos empreendimentos.

O fundador Tales Silva despertou para esse mercado em 2018, durante uma temporada em São Francisco dedicada a estudar tecnologia para construção civil. 

“Por ser engenheiro, gosto de tudo que automatize e deixe os trabalhos com o menor tempo possível. Mas, naquela época, o Brasil não tinha a gama de oportunidades que estavam amadurecendo no mercado americano,” ele disse ao Metro Quadrado.

Nos anos seguintes, construtoras passaram a incorporar cada vez mais ferramentas digitais à rotina dos empreendimentos, em um processo acelerado pela pandemia e pela necessidade de acompanhar obras de forma remota. 

“Quando eu comecei, era comum entrar em empresas que não usavam nenhum nível de digitalização. Hoje, é normal já usarem duas ou três soluções,” disse Tales.

Mas acompanhar o avanço físico dos empreendimentos foi apenas um primeiro passo do mercado.

O desafio agora é transformar as informações produzidas pelos canteiros em dados capazes de orientar decisões ao longo da obra.

Um obstáculo para isso é a falta de confiança que um player tem no outro.

Celso Berri, o fundador da Syncher, uma startup que usa AI para transformar imagens captadas nos canteiros em dados sobre produtividade e consumo de materiais, diz que cada parte da obra tem seu próprio auditor porque o banco não confia nos dados da incorporadora, que por sua vez não confia nos empreiteiros.

“Isso gera muita informação cruzada, que as construtechs estão tentando resolver,” ele disse. “E as incorporadoras estão buscando diferentes tecnologias porque há uma pressão por eficiência, preço e para se tornar competitivo.”

A tecnologia não tem apenas ajudado o credor a acompanhar a obra com mais precisão, mas também o incorporador a conseguir crédito.

A Makasí, fundada por Caio Bonatto, tem usado a inteligência artificial para cruzar informações das obras com dados financeiros - e assim auxiliar as pequenas e médias incorporadoras na análise de crédito. 

A startup diz que mais de 80% das pequenas e médias empresas da construção nunca conseguiram acessar capital profissional, apesar de responderem pela maior parte das obras realizadas no País. 

“O long tail do setor sempre ficou estagnado porque o incorporador tinha que vender o almoço para comprar a janta,” disse Bonatto ao Metro Quadrado.

Apesar do avanço das ferramentas digitais, levar tecnologia para dentro dos canteiros continua sendo um desafio.

Como as obras costumam reunir centenas de trabalhadores, fornecedores e prestadores de serviço em ambientes que mudam diariamente, ainda faltam condições básicas para uma digitalização mais ampla, como conectividade estável e processos padronizados. 

“A questão não é tecnologia. Está todo mundo experimentando AI. Mas se você chega com um iPad para um mestre de obras de 50 anos, por mais aberto que seja, ele ainda quer abrir a planta na mesa e rabiscar no lápis,” disse Rodrigo Abrahão, do Secovi-SP.

FONTE: METRO QUADRADO