Por Lais Godinho, Álvaro Campos, Lara Asano e Hamilton Ferrari
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, disse que não dá para ficar “contente” com crédito maior e depois “reclamar” do endividamento no Brasil. Em palestra no Febraban Tech 2026, evento promovido pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), afirmou que o Pix contribuiu para a inclusão financeira e o consequente acesso a cartões de crédito no país.
O maior número de usuário de serviços financeiros cria desafios relacionados ao uso do crédito, especialmente no cartão. A inclusão financeira precisa avançar para uma etapa de “cidadania financeira”, segundo ele, com maior atenção ao uso consciente dos produtos financeiros. Galípolo disse que o problema não está apenas na infraestrutura de pagamentos, mas na forma como ela se mistura com a oferta de crédito. Ele afirmou que 96 milhões de brasileiros passaram a ser usuários de cartões no Brasil, e mais da metade (52,8 milhões) carregam dívidas. Os dados são de 2024 e foram divulgados no Relatório de Cidadania Financeira de 2025, publicado em abril.
“Desde o Pix a gente teve 37 milhões de pessoas a mais utilizando o cartão de crédito. 54% da renda está comprometida com gastos do cartão de crédito e os juros mensais chegam a 15,1%.”
Para o presidente do BC, promover uma elevação da oferta de crédito ocasionará um aumento natural do endividamento das famílias, apesar de entender que nem todo endividamento é necessariamente negativo. “Não dá para ficar contente com uma notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, disse Galípolo.
O presidente do BC defendeu que, historicamente, o crescimento do endividamento costuma ser registrado em períodos de taxa mais baixa de juros. Ele afirmou que o custo mais alto “inibe” a contratação de dívida.
O problema atual, afirmou, está no crescimento de dívidas associadas a consumo sem formação de patrimônio, sobretudo quando contratadas em linhas de custo elevado. O presidente do BC também chamou atenção para o fato de que a melhora recente da renda e do mercado de trabalho não se refletiu, na mesma proporção, na redução do endividamento em modalidades mais preocupantes.
O presidente do BC afirmou que o sistema financeiro do Brasil é reconhecido no mundo pela sua eficiência tecnológica e por estar na fronteira das inovações, principalmente pela herança da complexidade provocada pela inflação elevada. Segundo ele, o Pix realizou 80 bilhões de transações em 2025, movimentando R$ 35 trilhões entre 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de pessoas jurídicas. Galípolo afirmou que o Pix é vítima de “fake news”, mas que o BC “só se manifesta por meio de seus diretores e presidente” oficialmente.