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05/10/2026

Muito antes da Times Square, EUA influenciam urbanismo de São Paulo há quase um século (Folha de S. Paulo)

De marginais a arranha-céus, metrópoles norte-americanas inspiraram desenvolvimento da capital paulista. Urbanista de Nova York liderou plano de obras que urbanizou várzeas do rio Tietê e expandiu vias expressas.

Por Priscila Mengue

 

A implantação de uma "Times Square" em São Paulo continua incerta após outro recurso ser negado pela Justiça. Mais do que uma iniciativa pontual, a proposta remete a um histórico mais amplo da trajetória da cidade, de projetos urbanos inspirados e influenciados pelos Estados Unidos.

Das marginais aos arranha-céus do centro antigo, da canalização dos cursos d’água ao shopping center, o modelo norte-americano é evidente até hoje. E não só como referência para gestores públicos e a iniciativa privada, mas também "exportado" de forma mais direta.

O principal exemplo remete aos anos 1950, quando uma empresa do grupo Rockefeller foi contratada pela prefeitura. A companhia enviou a São Paulo Robert Moses, um dos mais influentes nomes da transformação de Nova York, conhecido pela defesa das vias expressas.

O resultado da visita foi a entrega do Programa de Melhoramentos, ligado a uma série de medidas tomadas por diferentes prefeitos paulistanos ao longo de anos. Entre elas, a urbanização das várzeas do rio Tietê, a expansão de viadutos e a abertura de vias expressas.

O norte-americano voltou outras vezes à capital paulista, em viagens amplamente acompanhadas pela imprensa. À época, a Folha da Manhã chegou a descrevê-lo como "uma das maiores autoridades do mundo em urbanismo".

A influência avançou especialmente no pós-guerra, de acordo com pesquisadores, quando os EUA estavam consolidados como superpotência. Adaptar a experiência norte-americana era, portanto, uma forma de São Paulo se projetar em meio à disputa de influência com o Rio de Janeiro, então capital.

Foi nessa época que o edifício Altino Arantes (hoje Farol Santander) se tornou o maior arranha-céu do país. A inauguração oficial foi em 1947.

O prédio —inspirado no Empire State— está entre as construções do centro velho com estilo art déco, como as sedes do Banco de São Paulo e do Banco do Brasil. Em alta em Nova York nos anos 1920 e 1930, essa estética é marcada pelas linhas retas, sem tanta ornamentação quanto os edifícios anteriores, de influência europeia.

Nova York é a referência mais costumeira, mas não só: bondes teriam chegado a circular com o slogan "São Paulo, a Chicago da América do Sul", emulando o rápido crescimento da metrópole norte-americana. Comparações com Detroit também ocorriam.

Professora aposentada do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora de planejamento urbano, Sarah Feldman aponta que a própria Lei de Zoneamento foi concebida nos moldes norte-americanos, a partir de 1947. Isso porque "buscava garantir o valor econômico das propriedades", enquanto a experiência alemã na área tinha viés mais social.

A pesquisadora pondera, contudo, que essas referências por vezes passam por adaptações abrasileiradas. O exemplo é o da própria Times Square. O projeto paulistano é focado especialmente nos telões, e não em outras iniciativas daquele local, como o fortalecimento dos teatros e dos cinemas e a restrição a carros em parte das quadras.

Pesquisadora da influência norte-americana na transformação de São Paulo em metrópole, Ana Elena Salvi conta que a arquitetura e o urbanismo eram parte do peso cultural dos EUA na América Latina. Mais do que isso, eram uma forma de exportar um modo de vida americanizado, atendendo interesses políticos e econômicos.

"A influência no próprio urbanismo, no desenho de cidade... Deixou muito rastro", diz Salvi, também coordenadora-geral de Arquitetura e Urbanismo e Design de Interiores da Unip (Universidade Paulista). Ela pondera que parte dos conceitos importados já vinham sendo realizados ou estudados de maneira independente, como a retificação e o enterramento de rios, por exemplo.

Com pós-doutorado em andamento voltado aos projetos de Robert Moses na América Latina, o historiador Bruno Zorek aponta que as comparações de São Paulo com os Estados Unidos ocorreram em meio a uma rápida transformação. Ele menciona textos do sociólogo Florestan Fernandes da década de 1950, que, com cinco anos de diferença, passou de comparações com Manchester para Chicago, Detroit e Nova York.

O pesquisador considera que a influência perdurou especialmente até os anos 1970, quando a maior metrópole norte-americana passou a ser associada à violência e a problemas sociais. A situação foi revertida somente no fim do século 20 e início do século 21, por meio de iniciativas públicas variadas.

Cidade para os carros

O planejamento urbano paulistano voltado ao transporte sobre rodas também está relacionado à inspiração norte-americana. Por décadas, entendeu-se que avenidas, ruas e estradas permitiam maior flexibilidade nos trajetos do que o transporte sobre trilhos.

A urbanista Nadia Somekh, professora emérita da Mackenzie e referência nos estudos de verticalização, associa ainda esse rodoviarismo ao avanço da indústria automobilística no país. "É uma cidade desenhada para os carros", resume.

O maior exemplo nesse campo é o Plano de Avenidas, implantado em parte pela gestão Prestes Maia, a partir do fim da década de 1930. "Se falava que governar era abrir estradas", diz Renato Leão, professor de história urbana na Universidade Estadual de Maringá.

"Os EUA passaram a ter mais influência [do que o Reino Unido], maior soft power, com a Política da Boa Vizinhança", afirma. Ele se refere aos anos 1930 e 1940, período de ações de diplomacia, aproximação cultural e cooperação econômica capitaneadas pelo presidente Franklin Roosevelt.

Até mesmo o shopping center advém em parte do modelo de "cidade para carros" exportado: um centro de comércio climatizado e com amplos estacionamentos.

Os chamados "condomínios-clube" também são apontados como uma referência adaptada dos EUA. Por vezes murados e com lazer interno, são isolados do movimento da rua, em modelo distinto do consolidado em grandes cidades europeias.

Hoje, a influência norte-americana continua, mas mais pulverizada. Para os pesquisadores, as referências urbanísticas são mais globalizadas, advindas de países variados, como a China (com as "cidades esponja") e a França ("cidade de 15 minutos").

FONTE: FOLHA DE S. PAULO