Na Baixada Santista, essa mudança de perfil tem ampliado a demanda por imóveis compactos. Segundo o presidente do Creci-SP, José Augusto Viana, o movimento ganhou força após a pandemia. “Houve um crescimento significativo na taxa de emprego e, naturalmente, a pessoa empregada quer ter a sua própria vida”.
Jovens e idosos lideram a demanda
A procura por unidades menores é puxada principalmente por pessoas entre 25 e 35 anos. De acordo com Ricardo Novoa, gerente-geral de vendas da Família Imóveis, esse comportamento tem se antecipado. “Hoje, pessoas de 20 a 25 anos já estão saindo para morar sozinhas. Isso não era comum alguns anos atrás, quando o sonho desse público costumava ser o carro”.
Além dos jovens, há também um público mais maduro. Segundo Sthefano Lopes, diretor-geral da R3 Imóveis, muitos compradores buscam praticidade após a saída dos filhos. “São pessoas que buscam mais praticidade, já que os filhos saíram de casa, então não faz mais sentido morar em um apartamento grande. Eles procuram mais praticidade e um custo de vida mais baixo”.
Investidores também ampliam esse movimento. “Também existe uma demanda importante de investidores que compram unidades para locação, justamente pela facilidade de ocupação e boa liquidez”.
Compactos ganham liquidez e aceleram vendas
Os imóveis mais procurados são apartamentos de um dormitório, com metragem entre 40 m² e 45 m². “Esse tipo de imóvel atende bem quem mora sozinho, porque tem um custo mais acessível e uma manutenção mais simples”, comenta José Augusto Viana.
Os estúdios, por sua vez, vêm ganhando espaço nos lançamentos recentes. “De três a quatro anos para cá, começaram a surgir muitos lançamentos desse tipo em Santos. Antes, o que existia eram quitinetes usadas”, afirma Novoa.
Com alta demanda, a absorção tem sido rápida. “É um mercado em crescimento e muito promissor. Em muitos casos, mais de 50% das unidades são vendidas ainda no lançamento”, diz Lopes.
Os preços variam conforme tipologia e localização. Em Santos, quitinetes custam entre R$250 mil e R$450 mil, enquanto estúdios variam entre R$400 mil e R$600 mil. Apartamentos de um dormitório podem chegar a R$900 mil. No segmento de quitinetes voltadas à renda intermediária, os valores ficam entre R$250 mil e R$380 mil.
Mudança estrutural no perfil das famílias
Apesar de o arranjo familiar nuclear ainda ser predominante, com 65,6% dos domicílios, houve recuo frente aos 68,4% registrados em 2012. Já os domicílios unipessoais cresceram de forma consistente no período.
Segundo analistas do IBGE, o avanço está ligado ao envelhecimento da população e a mudanças comportamentais, como a maior autonomia feminina. Em 2023, os homens representavam 54,9% dos moradores sozinhos, enquanto as mulheres eram 45,1%.
A maior concentração está na faixa de 30 a 59 anos, seguida por pessoas com 60 anos ou mais, que representam 40%. “Em boa parte dos domicílios unipessoais vivem pessoas com mais de 60 anos. Nesta fase, os filhos já saíram de casa e muitos ficaram viúvos”, analisa o pesquisador do IBGE William Kratochwill. “Não por acaso, nos estados onde vivem mais idosos, como Rio de Janeiro, essa porcentagem é maior”.
As diferenças entre gêneros também são relevantes. “Isso acontece porque até os 59 anos tem muito mais homem morando sozinho. Eles viajam, mudam de emprego, se separam e vão morar sozinhos”, diz o demógrafo e economista José Eustáquio Alves Diniz. “Porém, entre a população com mais de 60 anos, a maioria é de mulher vivendo sozinha. As mulheres costumam casar mais cedo que os homens e vivem em média sete anos a mais do que eles”.
Impactos práticos para o mercado
A mudança no perfil de moradia já redefine estratégias do setor. Incorporadoras têm investido em projetos compactos com áreas compartilhadas, como lavanderia, coworking e academia, para compensar a metragem reduzida. “Os empreendimentos são desenvolvidos para oferecer soluções que vão além do espaço interno, com áreas compartilhadas que facilitam o dia a dia”, afirma Lopes.
Para corretores, o cenário exige adaptação no discurso comercial, com foco em praticidade, localização e custo total de ocupação. Para investidores, os compactos se consolidam como ativos de alta liquidez e fácil locação. Já compradores demonstram perfil mais racional. “O comprador está mais racional e atento ao potencial de valorização do imóvel”.
Além da moradia principal, há também uso como segunda residência no litoral. “No Litoral, esse tipo de imóvel também é muito procurado por quem busca uma opção para veraneio”, diz Viana.
A tendência indica uma mudança estrutural no mercado, com foco crescente em eficiência, acessibilidade e aderência ao estilo de vida contemporâneo.