Priscila Mengue
A própria fachada espelhada da Torre Alto das Nações expõe a diferença ao refletir parte dos prédios da vizinhança, bem menores do que os 219 m do novo arranha-céu mais alto de São Paulo. O edifício teve a conclusão da obra atestada em 30 de junho, com "habite-se" emitido pela prefeitura.
Primeiro a ultrapassar a marca dos 200 m na cidade, o recordista está localizado na avenida das Nações Unidas, no eixo corporativo da marginal Pinheiros e da avenida Doutor Chucri Zaidan, no distrito Santo Amaro, zona sul. Tem quase 50 m a mais em relação ao prédio que ocupa o segundo lugar, o Platina 220, de 171,7 m, no Tatuapé, região leste.
Embora com certificado de conclusão, a torre continua em acabamento. A data de finalização dos trabalhos não foi divulgada pela WTorre. A incorporadora da obra foi procurada, via WhatsApp, entre segunda (6) e quarta-feira (8).
A torre faz parte do complexo Paseo Alto das Nações, cuja primeira fase foi concluída em novembro de 2022, com supermercado, lojas, restaurantes e torre de uso misto. O prédio corporativo e a praça de convivência serão inaugurados neste semestre, enquanto o edifício residencial e o teatro ficarão para a próxima etapa.
O arranha-céu tem 39 pavimentos de lajes para escritórios (com mais de 4 m de pé-direito), quatro "sobressolos" de garagem, térreo (pé-direito de 8,5 m) e mirante. Desse modo, há diferentes leituras sobre o total de andares.
Com obra iniciada por volta de 2024, a torre atingiu a altura máxima em setembro de 2025. Está localizada no terreno onde havia o primeiro supermercado do grupo Carrefour no Brasil, que integra a empreitada.
Em nota, o Carrefour Property respondeu que a conclusão da torre é um marco para o empreendimento. Também apontou ter iniciado a estratégia de comercialização e conversas com interessados em parte dos espaços. "A expectativa é positiva diante do potencial da região", afirma.
A maior parte das lajes pertence à Altre, subsidiária do grupo Votorantim e que recentemente lançou um site para anunciar a locação de parte dos escritórios. A expectativa é que cerca de 10 mil pessoas circulem pelo prédio diariamente.
Para o público em geral, a atração será o mirante com vista 360º e uma "caixa de vidro" suspensa, que se projeta para fora, como um cubo transparente. Remete a pontos turísticos populares internacionais, como em Chicago, e nacionais, a exemplo do Sampa Sky, no centro paulistano.
Maior prédio de escritórios do Brasil; proposta arquitetônica e engenharia
O Alto das Nações também se torna o maior prédio de escritórios do país. O edifício ultrapassa o Órion Complex, de Goiânia, que tem 191 m.
No ranking geral, ocupa a sexta posição, atrás de cinco residenciais de Balneário Camboriú, no litoral de Santa Catarina, principal polo de arranha-céus no Brasil. O recordista é a torre 2 do Yachthouse by Pininfarina, com 294,1 m.
Autor do projeto arquitetônico do Alto das Nações, Jonas Birger costuma contemplar a criação quando pedala na ciclovia do rio Pinheiros e diz que já a considera um marco na paisagem. "Conforme está o céu, a cor fica diferente, sempre muito suave", afirmou ele.
O arquiteto disse que buscou diferentes ângulos marcados e formas retas para evitar que o resultado fosse um "bloco muito maciço e desumano". Há ainda uma linha vertical formada por terraços distribuídos nos pavimentos de escritórios.
Ele lembra que construções verticais historicamente funcionavam também como símbolos de riqueza. Exemplos são as das cidades de San Gimignano e Bolonha, na Itália, em que famílias ergueram grandes torres no período medieval para demonstrar poder e influência.
"Desde os primórdios da humanidade, a gente quer subir, quer ir para o alto", afirmou. "A torre mostra a importância."
A decisão por "pele de vidro" ocorreu, segundo ele, porque seria difícil a manutenção de uma fachada com outro tipo de revestimento, diante das dificuldades de acesso e da exposição a intempéries. Ainda destacou que esse material permitiu que os escritórios tivessem vista livre, do piso ao teto.
Além disso, o projeto tem duas jardineiras na fachada, onde estão plantas de raízes resistentes ao vento. Essa vegetação forma "linhas verdes". São uma "brincadeira", descreveu o arquiteto.
Por causa da altura, um estudo de impacto dos ventos foi realizado previamente pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Isso levou a uma estrutura com leve "flexibilidade", como é comum nesse tipo de construção, para que não seja "rígida" demais e sofra com o impacto das ventanias.
São Paulo vive onda de arranha-céus
Prédios dos anos 1940 a 1960 no centro paulistano foram os líderes de altura em São Paulo por décadas, com o Mirante do Vale (Palácio W. Zarzur) detentor do recorde por 55 anos.
A virada ocorreu com a transformação do Tatuapé em polo de arranha-céus: em 2021, com o mais alto residencial da cidade, o Figueira Altos do Tatuapé, e, em 2022, com o Platina 220.
Aos poucos, porém, as marcas são batidas na marginal Pinheiros. Isso porque, além do Alto das Nações, o Utopia PG Residences deve alcançar 173,8 m em 2027, de modo a levar o recorde de maior residencial para o complexo Parque Global, em frente ao Paseo Alto das Nações.
Essa região da marginal é parte da chamada operação urbana Água Espraiada, que permite verticalização mais acentuada, por ser "continuação" da operação urbana Faria Lima. Também é ligada aos diversos edifícios corporativos da Chucri Zaidan.
Nos próximos anos, o ranking dos arranha-céus paulistanos deve ter mais mudanças. Uma característica será a dispersão por outros territórios valorizados, porém com a continuidade do Alto das Nações no primeiro lugar.
Um dos principais será o Epic Jardim Europa, que se tornará o maior residencial, com 210 m, na avenida Rebouças, na zona oeste, lançado em 2025. Já as torres Veneza e Milano do Vista Cyrela terão 206 m, nas proximidades do Jockey Club, no distrito Morumbi.
Por outro lado, salvo essas exceções, a grande maioria dos novos prédios paulistanos não é formada por arranha-céus e tem altura inferior a 150 m. A onda de verticalização dos últimos anos não é unanimidade na cidade, com uma parte dos críticos apontando possíveis impactos no cotidiano do entorno.
Em uma comparação internacional, os paulistas não se encaixam nas categorias de "superalto" ou "mega-alto", voltadas àqueles com ao menos 300 m e 600 m, respectivamente. O recordista mundial é o Burj Khalifa, em Dubai, com 828 m, mas há obra na Arábia Saudita de prédio que almeja chegar a 1 km.