Por Ana Luiza Tieghi
Levantamento da consultoria Brain aponta que o estoque de unidades novas em Balneário, Itapema e Porto Belo, que somam 246,7 mil moradores, só perde, no Brasil, para o estoque da cidade de São Paulo, com 11,4 milhões de habitantes.
“A população em Balneário aumenta entre 5 e 6 vezes durante a altíssima temporada”, afirma Fábio Araújo, CEO da Brain.
O casal Raphaella e Christian Sigel, moradores de Curitiba (PR), ela proprietária de uma marca de joias e ele sócio de uma gestora, se uniu à família Pozzobon, ligada ao agronegócio, e estão fundando uma incorporadora para atuar em Itapema e Balneário Piçarras, a Boutiq.
Segundo Araújo, Piçarras e a vizinha Penha são a nova fronteira desse mercado imobiliário no litoral catarinense, após o quase esgotamento dos terrenos em Balneário Camboriú e a atividade intensa em Itajaí, Itapema e Porto Belo.
São também opções relativamente mais baratas, ante o encarecimento daquelas cidades. Balneário tem hoje o mercado residencial mais caro do país, de acordo com o índice FipeZap. Em abril, cada metro quadrado custava, em média, R$ 15.185. Itapema vinha em segundo lugar, com média de R$ 15.179, e Itajaí, em quinto, a R$ 13.166. Como comparação, o valor médio na capital paulista era de R$ 12.019, a sétima posição do ranking.
A Boutiq tem uma ajuda para o seu primeiro projeto, que será em Itapema: o terreno do empreendimento já era da família de Raphaella. “Nossa família é de Brusque, meu avô foi um dos primeiros desbravadores de Balneário Camboriú e, em 1978, meu pai comprou um terreno [em Itapema] e fez a casa de praia dele”, conta. “Aquela casinha, com o crescimento do litoral, passou a ser cercada por arranha-céus. Aconteceu em Balneário e começou a acontecer em Itapema.”
A casa de praia também dará lugar a um arranha-céu. A previsão é que o projeto tenha 51 andares, com arquitetura do escritório Metro Quadrado, de Joinville (SC).
O terreno em Balneário Piçarras, para o segundo empreendimento, foi comprado com recursos próprios, afirma Christian, e deve receber um projeto com três torres. O lançamento dos dois empreendimentos, que terão valor geral de venda (VGV) previsto de R$ 1,1 bilhão a R$ 1,3 bilhão, deve ocorrer em meados do próximo ano.
Para a diretora-financeira da nova incorporadora, Thayna Pozzobon, a entrada no ramo imobiliário é uma forma de diversificar os negócios da família, que passa pelo período de sucessão entre gerações. “Em vez de comprar mais área rural, decidimos comprar terrenos na areia”, afirma.
O foco da companhia são projetos de alto padrão, o forte dessa parcela do litoral catarinense. Em Balneário Camboriú, levantamento da Brain aponta que 53% das unidades novas disponíveis para venda custam mais de R$ 4 milhões. São 986 imóveis.
Em Itapema, há outros 999 imóveis acima de R$ 4 milhões, que somam 11% do total disponível. A cidade concentra 451 projetos com unidades à venda, o maior volume entre os municípios do litoral norte catarinense.
Para Araújo, apesar do alto custo dos imóveis e do fato de serem unidades para uso esporádico, não há uma bolha imobiliária na região. “Ouço falar de bolha em Balneário e Itapema há 15 anos. Seria preocupante se tivesse queda nas vendas, mas estão estáveis, não existe problema”, afirma. No primeiro trimestre, as vendas de imóveis novos em Balneário Camboriú recuaram 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Em Itapema, a queda foi de 54%. Já os lançamentos recuaram 8% e 54% nessas cidades.
De acordo com a Brain, 35% dos compradores da região são de cidades catarinenses. Outros 30% são de Curitiba, de onde é possível chegar à área, que sofre com os engarrafamentos, de helicóptero. Há ainda 10% de compradores de São Paulo e 15% do Centro-Oeste. O restante vem de outras áreas.
Apesar do aparente sucesso imobiliário da região, grandes incorporadoras nacionais ainda não se arriscaram por ali. O mercado é predominantemente de empresas regionais. Para Araújo, parte da explicação está no fato de que se convencionou aceitar permutas para a compra dos imóveis novos. “Tem participação grande de venda direta do incorporador para o cliente, em 60 meses, e muito incorporador aceita permuta de apartamento, casa, lote, carro”, explica.