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17/08/2026

Juro alto freia novo modelo de crédito imobiliário (Valor Econômico)

Expectativa do governo federal é que o modelo, lançado em outubro de 2025 para minimizar a escassez de recursos da poupança, viabilize R$ 111 bilhões neste ano, tornando disponíveis R$ 52,4 bilhões a mais em relação ao modelo atual.

Por Edna Simão

 

O novo modelo de crédito imobiliário, que ainda funciona em fase de testes, vem sustentando o forte crescimento dos financiamentos para a compra da casa própria neste ano. Há temor, porém, de que o ritmo de expansão em 2027 seja comprometido pela manutenção das elevadas taxas de juros, atualmente em 14% ao ano.

Em outubro do ano passado, o governo lançou um novo modelo de crédito imobiliário com o objetivo de minimizar a escassez de recursos da caderneta de poupança, uma das principais fontes de funding do financiamento imobiliário. Por enquanto, o modelo está em fase de testes, mas no ano que vem começa a vigorar de forma integral. expectativa do governo é que as mudanças viabilizem R$ 111 bilhões em recursos neste primeiro ano, tornando disponíveis R$ 52,4 bilhões a mais, em relação ao modelo atual.

Para a vice-presidente de Habitação da Caixa Econômica Federal, Inês Magalhães, a demanda por imóveis continuará elevada devido a fatores demográficos, especialmente o crescimento do número de domicílios, mas a elevada taxa de juros pode limitar os impactos do novo modelo, que passará a vigorar plenamente.

A Caixa projeta para este ano com uma expansão contínua do volume de financiamentos, estimada em torno de 10%. O banco trabalha com aproximadamente R$ 250 bilhões em financiamentos habitacionais e a tendência é encerrar o ano em valor ligeiramente superior. Para 2027, a expectativa é repetir nível semelhante.

“O crescimento observado nos últimos anos foi bastante expressivo. A expectativa é manter um patamar elevado de operações”, frisou Inês Magalhães. O ritmo de das operações de crédito também deve ser influenciado pela destinação de R$ 20 bilhões do Fundo Social para a classe média.

Segundo a executiva, com o novo modelo, houve aumento da disponibilidade de recursos para financiamento habitacional. “O orçamento destinado ao SBPE neste ano deve chegar a aproximadamente R$ 80 bilhões, acima do patamar anterior, que girava em torno de R$ 60 bilhões. Isso mostra que houve ampliação da capacidade de financiamento. O movimento de longo prazo é caminhar para um sistema mais dependente de instrumentos de mercado, especialmente as LCIs, utilizando a poupança como mecanismo para garantir uma transição gradual”, ressaltou.

Na avaliação do Bradesco, com a adoção integral do novo modelo, os bancos passarão por um período de adaptação e ajustes operacionais. “Portanto, neste momento, ainda é difícil fazer uma projeção para 2027 por dois motivos: o cenário de juros de longo prazo está mais desafiador do que aquele previsto originalmente, quando o novo modelo foi lançado, e o limitador da taxa de juros pode restringir o apetite dos agentes financeiros, dependendo desse cenário de juros”, explicou a instituição financeira, por meio de nota.

Além disso, haverá no próximo ano, uma liberação menor de compulsórios. “Mesmo diante da liberação do compulsório, os bancos ainda estarão largamente sobreaplicados na relação entre crédito imobiliário e poupança e, portanto, o preço do financiamento continuará atrelado às curvas de juros de mercado de longo prazo”, frisou.

A expectativa do Bradesco é que o volume financeiro de novas contratações de financiamento imobiliário do mercado, destinadas à aquisição e à construção de imóveis, cresça entre 15% e 20% em 2026. Esse aumento é explicado, em grande medida, pela implantação do novo modelo de funding da poupança.

Para o presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Michel Cury, é preciso monitorar de perto o desempenho das operações de crédito no segundo semestre e acompanhar a transição do modelo para fazer estimativas para 2027. No primeiro semestre deste ano, com emprego e renda se mantendo fortes no país, apesar dos juros altos, a Abecip informou que o desempenho do crédito imobiliário surpreendeu, com crescimento de 23% na comparação com o mesmo período do ano passado. Com isso, a estimativa para 2026 será revisada para cima. No início do ano, a entidade projetava um avanço de 16%.

O vice-presidente de Indústria Imobiliária da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ely Wertheim, destacou que o novo modelo de crédito, mesmo na fase de testes, já contribuiu para o aumento dos financiamentos e das unidades vendidas. Ele defende, no entanto, uma aceleração da liberação dos compulsórios depositados no Banco Central para sustentar o ritmo de expansão das operações em 2027, bem como uma discussão futura sobre o teto de juros de 12% ao ano estabelecido no novo modelo. Ressaltou, no entanto, que é fundamental uma redução da taxa de juros do Banco Central para que o negócio se mantenha atrativo.

FONTE: VALOR ECONôMICO