Por Breno Damascena
O município de Itapema, no litoral de Santa Catarina, está prestes a superar Balneário Camboriú e se tornar a cidade com o metro quadrado mais caro do Brasil. A expectativa da valorização imobiliária é endossada pelo prefeito Alexandre Xepa (PL) e sustenta um investimento estimado em R$ 60 milhões para alargar a orla da praia.
O projeto prevê o lançamento de 416 mil metros cúbicos de areia ao longo de 4,75 quilômetros de orla, entre os molhes dos rios Perequê (sul) e Taboleiro das Oliveiras (norte). A faixa de areia deve ganhar de 20 a 60 metros de largura, conforme o trecho. A areia será dragada de uma jazida a aproximadamente 19 km da costa, compatível com a praia nativa.
Em matéria publicada pelo site ND+ em fevereiro deste ano, Xepa disse que a expansão da praia vai aumentar os valores dos imóveis em mais de 30%. “Depois do alargamento, eu não tenho dúvida de que vai ser o metro quadrado mais valorizado do Brasil”, afirmou.
Procurada pelo Estadão, a equipe do governante afirma que a convicção da valorização se baseia na cidade vizinha. “Balneário Camboriú registrou valorização acima de 30% nos imóveis da orla após o alargamento da Praia Central, superando as projeções iniciais do setor”, disse, em nota.
“Essa estimativa também se apoia em um estudo da consultoria americana Appraisal Institute, que identificou valorização de 2,6% para cada 10% de aumento da faixa de areia em praias dos EUA”, complementa.
O investimento será dividido entre o município de Itapema (R$ 30 milhões em recursos próprios) e o Governo de Santa Catarina, comandado pelo governador Jorginho Mello (PL). A previsão é que a obra comece já em julho e seja concluída em cerca de quatro meses, antes da temporada de verão.
Cidade atrai novos projetos de luxo
O mercado imobiliário já celebra o movimento. A perspectiva de ter uma praia mais atrativa modificou os planos da GT Home, construtora responsável pelo prédio residencial mais alto da América Latina, o Yachthouse by Pininfarina, em Balneário Camboriú (SC). A empresa anunciou sua estreia em Itapema com dois megaempreendimentos frente-mar.
De acordo com Bruno Pardo, diretor de incorporação da GT Home, o alargamento da praia transformou um projeto que será anunciado no segundo semestre.
“Compramos o terreno antes da ampliação da faixa de areia, mas o empreendimento que será lançado mudou completamente. Antes, as lojas do térreo eram voltadas apenas para a rua (perpendicular). Agora também terá lojas de frente para o mar”, comenta.
Pardo justifica que o alargamento da praia deve estimular o trânsito de veículos, a instalação de novos pontos de ônibus e a caminhada de pedestres em uma área que até então era “esquecida”. “A rua mais valorizada de Itapema era a rua paralela à praia, não os terrenos à beira-mar. Agora isso deve mudar”.
No segundo semestre deste ano, a GT Home pretende anunciar oficialmente um empreendimento de luxo em um terreno de 5 mil m² que antes abrigava um shopping center. A promessa é de um prédio com 140 apartamentos de quatro suítes, todos com vista para o mar, distribuídos em 52 andares.
A altura do prédio também foi orientada pela expansão da orla, conforme esclarece Pardo. “A nossa torre teria 42 pavimentos. Isso porque existe uma regra do Plano Diretor que não permite que você sombreie a praia em um horário específico do dia, explica. “Agora, os prédios podem ficar mais altos e os terrenos naquela área passam a ser mais valorizados.”
A companhia também planeja outro lançamento, em um terreno de 55 mil m², na orla da Meia Praia, mas ainda sem data definida. “Adquirimos terrenos estratégicos para uma expansão planejada nos próximos anos. Itapema deve seguir despontando em valorização com os novos investimentos públicos e privados”, comenta João Alfredo Thomé, CEO da GT Home.
Outra empresa que está de olho no alargamento da orla é a Sunprime, construtora de alto padrão fundada em 2012 pelo empresário Eduardo Pastor. Herdeiro da indústria têxtil Buettner, o incorporador desenvolve projetos de luxo em terrenos da região que pertencem à sua família. Lançado em 2025, o Orgânica, prédio com 50 andares, é fruto desse ambiente.
Em construção em um terreno de 2 mil metros quadrados a poucos metros da praia, o projeto é assinado pelo arquiteto Leonardo Zanatta e tem a fachada desenvolvida pelo escritório Burle Marx. São 80 apartamentos de 210 metros quadrados que custam de R$ 3,4 milhões a R$ 5,4 milhões. Além disso, o prédio terá duas coberturas duplex.
“No verão, Itapema está quase sem extensão de praia para atender os banhistas e turistas. Cada ação pública, de fato, impacta os preços. Já prevemos uma virada de chave em relação aos valores praticados na cidade nos próximos anos”, analisa Pastor. “Deve gerar mais movimento e comércio, além de melhorar a segurança”, diz.
Valorização de Itapema
Nos últimos 12 meses, o preço do metro quadrado em Itapema saltou 8,10%, de acordo com o Índice FipeZAP. Atualmente, a cidade ocupa a segunda posição no ranking de lugares mais caros do País para comprar um imóvel, atrás apenas de Balneário Camboriú. Porém, a distância é pequena, de apenas R$ 6.
Hoje, Itapema tem o metro quadrado avaliado em R$ 15.179, enquanto em BC o preço do metro quadrado está em R$ 15.185. A terceira cidade mais cara do País no Índice FipeZAP é Vitória (ES), onde o metro quadrado médio está em R$ 14.818.
Florianópolis e Itajaí, também de Santa Catarina, aparecem em seguida. Já São Paulo (R$ 12.019) ocupa apenas a sétima posição no ranking. Para Pastor, o potencial de crescimento e valorização da cidade é ainda maior. “Itapema é um filho mais novo de Balneário Camboriú. Ainda está amadurecendo”, comenta.
Em contrapartida, a produção imobiliária impulsionada por incentivos públicos e melhorias urbanísticas também gera questionamentos sobre ocupação do solo e periferização da população.
O professor do departamento de geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Everton da Silva diz que os lançamentos imobiliários não têm a moradia como objetivo primordial, mas, sim, o investimento financeiro. “Em Itapema, onde o valor do metro quadrado valoriza acima da inflação, esse fenômeno é mais forte”, afirma. “É um processo de ‘uberização’ do mercado habitacional, em que o aluguel de curta temporada é mais rentável do que o de longo prazo, reduzindo a oferta para moradores locais e elevando os custos de vida”, critica o professor, ao indicar o papel do Estado nesse processo. “Ações como o engordamento da faixa de areia dão segurança aos investidores e incentivam construtoras a produzirem.”
Silva, que lidera um grupo de observação e transformação do território vinculado à UFSC, diz que o aumento dos preços expulsa trabalhadores, como garçons, professores e entregadores, para as periferias e cidades vizinhas. “Grande parte dos imóveis é adquirida por pessoas de fora, como investidores do agronegócio e da indústria, e celebridades para uso ocasional ou veraneio”.
“Enquanto isso, o aluguel e a compra de imóveis, além de serviços básicos e o comércio local, se tornam inacessíveis para os trabalhadores”, afirma. “Como o Estado gera valorização imobiliária ao implantar infraestrutura, a coletividade precisa usufruir desses ganhos.”
O professor defende a implementação de políticas que capturem a valorização para prover moradia a quem não tem condições de comprar apartamentos nessas áreas. “É importante aproveitar esse volume para resolver a vida das pessoas menos favorecidas”, defende.
Impactos sociais e ambientais
No início de maio, o governador Jorginho Mello entregou a Licença Ambiental de Instalação (LAI) para a obra de alimentação artificial da praia de Itapema. O documento foi concedido pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA). Além da valorização imobiliária, a justificativa é que as medidas vão proteger a infraestrutura urbana contra eventos oceanográficos extremos.
As autoridades entendem que o alargamento é fundamental para enfrentar o avanço do mar e os processos erosivos que historicamente afetam a região. “Os principais objetivos são proteger a infraestrutura urbana contra eventos oceanográficos extremos e ampliar a faixa de uso da orla para moradores e turistas”, disse a Prefeitura, em nota.
Na visão de Paulo Pagliosa, professor de Oceanografia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o principal motivador das mudanças é o incremento no valor dos imóveis e o aquecimento do mercado imobiliário. Isso porque a alimentação artificial das praias pode ser prejudicial para o meio ambiente e gerar riscos à vida.
Especialista em impactos ambientais de aterro e alargamento de praias, Pagliosa afirma que este tipo de obra impacta a área de onde a areia é retirada e a própria praia em que os sedimentos são depositados. “As dunas e a restinga funcionam como um estoque de areia que o mar retira e repõe naturalmente. Com o alargamento artificial, o sistema perde sua capacidade de autorregeneração”.
Desta forma, segundo ele, a praia se torna mais vulnerável à erosão e a eventos climáticos extremos. “As correntes marítimas levam esse sedimento para praias vizinhas, alterando a geografia de toda a região”, complementa.
O professor também observa que o alargamento artificial pode promover riscos ao bem-estar e à segurança dos banhistas.
Pagliosa afirma que a qualidade da água registra uma piora significativa após as obras, quando não é acompanhada de obras de saneamento. “O alargamento atrai turistas, mas precisa de investimentos proporcionais e infraestrutura. E esse aumento de pessoas resulta em mais poluição despejada no mar”, comenta.
Há ainda o risco de afogamentos. “O aterramento altera a dinâmica do fundo do mar, criando perigos invisíveis e causando uma instabilidade no terreno”, comenta.
Fato é que Itapema não é a única cidade do Brasil ou mesmo do mundo que está fomentando iniciativas semelhantes. Balneário Camboriú ganhou os holofotes nos últimos anos, mas Florianópolis tem projetos de alargamento em praias como Ingleses e Jurerê Internacional; Natal desenvolveu o projeto de engorda da Praia de Ponta Negra, e Fortaleza ampliou áreas da Praia de Iracema.