Por Thaís Barcellos
A inadimplência das famílias renovou o recorde em agosto, segundo dados do Banco Central divulgados nesta terça-feira. Subiu de 5,8% em julho para 6,0%, o maior patamar desde março de 2011.
A trajetória de alta prossegue mesmo sob os efeitos do Desenrola 2.0, lançado em maio pelo governo federal para propiciar a renegociação de dívidas das famílias com juros mais baratos. Diante disso, a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou mais uma modalidade do programa, agora com a compra de dívidas pela União.
No crédito livre, modalidades em que os juros são pactuados livremente entre o banco e o tomador do empréstimo, o número é ainda maior, passou de 7,8% para 8,0% - também a maior taxa da série histórica. Da mesma forma, a inadimplência pessoa física foi recorde no crédito direcionado, com alta de 3,4% para 3,6%.
Em outra frente, o comprometimento das famílias com o pagamento de dívidas se manteve no recorde da série histórica em julho, em 28,7%. Sem considerar o financiamento imobiliário, o comprometimento de renda ficou em 26,4%, mesmo patamar de junho.
Já o endividamento das famílias, que mede qual é o percentual total de dívidas em relação à renda geral, voltou ao maior patamar da série histórica em julho, de 49,7% para 49,9%. Sem o crédito habitacional, o percentual ficou em 30,8%.
Os indicadores de endividamento e comprometimento de renda têm defasagem de dois meses em relação ao período da divulgação.
Esses números reforçam a preocupação com o mercado de crédito do país, na mira dos bancos, de especialistas e das autoridades. No campo empresarial, tem se acumulado notícias sobre recuperações judiciais e extrajudiciais.
Na última sexta-feira, o governo lançou o Desenrola 3.0. Nesta modalidade, a União vai comprar carteiras de dívidas bancárias e não bancárias com deságio, selecionadas por meio de leilão, e repassar o desconto para os devedores, que poderão pagar à vista ou parcelado.
Esse desenho difere das versões anteriores do Desenrola, em que o governo somente garantia, por meio de fundo público, as renegociações de dívida. Como mostrou o GLOBO, cerca de 30% das operações repactuadas no Desenrola 2.0, lançado em maio, tinham parcelas em aberto em setembro.
Além dos programas do governo, o Banco Central também anunciou que prepara medidas para mitigar o risco de crédito, sobretudo considerando a composição de modalidades onerosas na dívida das famílias diante do comprometimento de renda recorde.
A concessão de crédito total em agosto caiu 0,2% ante julho, para R$ 729,2 bilhões. No crédito livre, a queda foi de 0,4%, para R$ 647,9 bilhões. Nesse segmento, houve recuo de 2,1% nos desembolsos para famílias, alcançando R$ 346,6 bilhões, e alta de 1,7% para as empresas, atingindo R$ 301,3 bilhões.
No crédito direcionado, as concessões totais subiram 1,8% em agosto, para R$ 81,3 bilhões, com aumento de 2,1% para famílias (R$ 47,7 bilhões) e avanço de 1,2% para empresas (R$ 33,6 bilhões).
Ao retirar as influências sazonais, as concessões totais subiram 1,7%, com aumento de 3,3% no crédito livre e queda de 12,2% no direcionado. No livre, houve alta tanto para famílias (1,0%) quanto para pessoas jurídicas (5,2%). No direcionado, por sua vez, o recuo foi no segmento pessoa física (7,5%) e na jurídica (9,7%).
O juro médio no crédito total subiu de 32,1% ao ano em julho para 32,3% ao ano em agosto. No crédito livre, a alta foi de 47,7% para 48,5% ao ano, enquanto no direcionado houve recuo de 12,1% para 11,7%. No crédito livre para famílias, a alta foi de 60,3% para 61,7% e, para as empresas, houve queda de 25,2% para 24,2%.
Por modalidades, no crédito livre a pessoas físicas, a taxa média do rotativo do cartão de crédito subiu de 436,2% em julho para 444,9% em agosto. No parcelado do cartão, a alta foi de 189,3% ao ano para 192,1%. Já no cheque especial, a queda foi de 137,3% para 136,4%. O recuo do juro médio no crédito pessoal sem garantia foi de 130,1% para 128,5%.