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28/04/2026

IA saiu do chat e entrou na operação imobiliária - Portas

IA deixa o atendimento e passa a transformar a operação imobiliária, impactando produtividade, dados e decisões nas imobiliárias brasileiras.

Por Daniel Claudino

Na minha leitura do setor, transitando por imobiliárias de diferentes portes e regiões do Brasil, a percepção que tenho é que a inteligência artificial chegou ao mercado imobiliário com uma promessa bastante específica: o atendimento por chatbot, rápido, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, com uma linguagem mais próxima da conversa real.

Útil, sem dúvida. Ainda hoje serve para quem o utiliza bem, principalmente como forma de manter o cliente engajado enquanto um profissional humano não pode atender. Mas há um limite visível nisso, e as imobiliárias estão começando a enxergá-lo com mais clareza. Os fornecedores de tecnologia também.

Nas últimas semanas, uma série de movimentos no Brasil e no exterior deixou mais evidente que a IA chegou a uma nova fase no setor. Ela deixou de ser apenas um canal de atendimento e passou a ser infraestrutura. Entrou no backoffice, na análise de risco, na produtividade do time, na forma como as imobiliárias prospectam e se relacionam com seus próprios dados.

O que mudou na operação

Os sinais concretos desse movimento têm vindo de diferentes frentes do setor. Na busca por imóveis, plataformas do mercado já permitem que o usuário descreva o que quer em linguagem natural, como “apartamento com cozinha aberta e perto do metrô”, sem precisar de filtros tradicionais. A IA interpreta o pedido e apresenta opções dentro da própria conversa. Não é um recurso de suporte. É uma mudança na porta de entrada da jornada de compra.

Nos bastidores da operação, o avanço é igualmente relevante. A Loft, que prevê investir R$ 100 milhões em tecnologia em 2026, implantou agentes de IA para análise de documentação no processo de locação. Segundo a CPTO da empresa, Ana Luiza Romeo, em entrevista à Bloomberg Línea, a introdução desses agentes representou um aumento de 50% de produtividade na área e redução de quase 60% no tempo de pagamento. “Nós colocamos as pessoas para a tomada de decisão final e elas passam a nos ajudar no treinamento dos modelos e em trabalhos mais complexos”, disse a executiva. É uma frase que resume bem o novo papel do profissional nesse ambiente.

O que o setor está aprendendo

A Convenção Loft/Portas 2026, realizada em São Paulo nos dias 15 e 16 de abril com tema “PotêncIA para Imobiliárias”, colocou esse debate no centro da agenda do setor. O interesse foi expressivo: o evento reuniu lideranças de imobiliárias de todo o país, com capacidade esgotada, sinal de que o empresário imobiliário brasileiro está tratando o tema como prioridade de negócio, não como curiosidade tecnológica.

Leonardo Longo, executivo do Google que participou do evento, foi direto ao ponto: o desafio para os profissionais não é entender o que a IA faz, mas entender como utilizá-la de forma prática. A frase captura bem o gargalo que se repete em diferentes imobiliárias: a ferramenta está disponível, mas o uso estruturado ainda é raro.

A maior transformação está dentro de casa

Na minha avaliação, o movimento mais importante que a IA está provocando nas imobiliárias não é tecnológico. É de capacitação interna.

Corretor, avaliador, vistoriador, profissional de financeiro, secretaria de vendas, backoffice: cada função dentro de uma imobiliária pode ser acelerada ou qualificada com o uso adequado de ferramentas de inteligência artificial. O que muda não é o que cada um faz, mas como faz. E o próprio empresário imobiliário, em muitos casos, ainda está aprendendo junto com a equipe, descobrindo as possibilidades na prática.

Isso não é uma fragilidade. É um momento raro: quando a tecnologia chega antes dos manuais, e quem aprende primeiro no cotidiano da operação passa a ter vantagem sobre quem espera por uma solução pronta. A imobiliária que estrutura esse aprendizado de forma coletiva, que transforma o domínio das ferramentas em cultura de trabalho, tende a sair à frente não por ter mais tecnologia, mas por usá-la melhor.

Uma fronteira em movimento permanente

Seria impreciso dizer que o setor imobiliário brasileiro está diante de uma transição a ser concluída. A IA não é um destino. É uma fronteira que se move continuamente, e as formas de uso vão evoluindo junto com ela.

O que parece mais sólido, olhando para o conjunto de movimentos recentes, é a direção: a IA deixou de ser promessa de eficiência e passou a ser teste de maturidade operacional. Imobiliárias, construtoras e fornecedores do setor que redesenham seus processos a partir dela tendem a tomar decisões com mais velocidade e precisão do que os que apenas adicionam ferramentas avulsas sem integração ao fluxo de trabalho.

O corretor e a imobiliária que entregam valor real não estão ameaçados por isso. Estão, na verdade, em melhor posição: libertos do trabalho repetitivo, podem concentrar energia onde a tecnologia ainda não chega, e provavelmente nunca chegará da mesma forma: na confiança, na leitura do cliente, na negociação onde o que está em jogo é muito mais do que um contrato.

FONTE: PORTAS