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18/05/2026

Financiar imóvel pode ficar mais caro com migração da poupança para Tesouro Reserva – Exame

Mercado de capitais já ultrapassa poupança no funding imobiliário

 

Por Rebeca Crepaldi

A competição está ficando cada vez mais acirrada. A poupança, a queridinha dos brasileiros por décadas, agora recebe mais um rival: o Tesouro Reserva. Com aplicações a partir de R$ 1 e liquidez diária, o título vem para competir justamente com a caderneta e as conhecidas “caixinhas”. Logo nos dois primeiros dias de negociação, foram investidos R$ 208 milhões segundo dados do Tesouro.

“Lembro da minha avó me pegar pela mão, ir até a Caixa Econômica Federal na Teodoro Sampaio e depositar seu dinheiro. Para se ter ideia, a caderneta, durante muitos anos, era a maior verba de publicidade do país”, relembra Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP.

Ela tem enfrentado um recuo gradual ao longo dos anos no coração dos investidores. Segundo a 9ª edição do “Raio X do Investidor Brasileiro 2026” da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, apesar da liderança como principal destino de recursos, ela caiu de 26% em 2022 para 22% em 2025.

A poupança também tem enfrentado uma saída de recursos nos últimos tempos. Desde janeiro de 2021, apenas 15 dos 64 meses registraram entrada positiva na poupança. Nesses últimos cinco anos e início de 2026, a captação líquida negativa foi de: R$ 34,75 bilhões (2021), R$ 80,94 bilhões (2022), R$ 72,39 bilhões (2023), R$ 21,72 bilhões (2024), R$ 62,98 bilhões (2025) e R$ 31,46 bilhões (até

O motivo de tal perda financeira é o rendimento. A poupança paga, atualmente, 6,17% mais a taxa referencial (TR) de 0,5% - menos do que a metade da Selic, nos atuais patamares de 14,50%. Por isso, o mais novo competidor da área é o Tesouro Reserva, que acompanha justamente a Selic. Nesse movimento, ele pode ajudar a drenar recursos da poupança - e isso está intimamente ligado ao financiamento imobiliário.

“A perda de recursos na poupança que já vem acontecendo afeta de forma direta o mercado imobiliário. Pode ser mais uma ameaça a essa estrutura que hoje financia o mercado habitacional de classe média”, diz José Urbano Duarte, consultor e ex-vice-presidente de Habitação da Caixa.

A Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) reconhece que o Tesouro Reserva tem “atributos competitivos”, mas avalia que ainda é cedo para mensurar o impacto efetivo do novo título sobre a poupança e, por consequência, sobre o funding do crédito imobiliário.

“O ponto central é que a poupança já vinha perdendo atratividade em ciclos de juros elevados, antes mesmo do Tesouro Reserva. Nossa avaliação é de que o risco estrutural de a poupança continuar encolhendo existe, mas não nasce com o Tesouro Reserva”, diz Filipe Pontual, diretor executivo da Abecip. Segundo ele, o Tesouro Reserva deve competir com outros produtos como CDBs, fundos DI e títulos públicos.

Por que a queda da poupança afeta o mercado imobiliário?

Imóveis destinados à classe média - fora do programa Minha Casa, Minha Vida - são financiados por um mix de fontes, principalmente poupança e principalmente poupança e mercado de capitais. O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) ainda representa uma fatia relevante do funding, embora tenha perdido participação ao longo do tempo, enquanto instrumentos do mercado de capitais, como LCIs, CRIs e LIGs, vêm ganhando espaço no financiamento habitacional.

A questão é justamente essa. Captar recursos na poupança é muito mais barato do que captar no mercado de capitais. Mas, devido à estabilização da caderneta -nos atuais patamares de R$ 750 bilhões desde maio de 2020 - esse blend de recursos está mudando. Segundo a Abecip, 28% da fonte de financiamento tem vindo da poupança, enquanto 39% vem do LCIs, CRIs e LIGs - marco histórico, quando o mercado de capitais ultrapassou a poupança no funding.

Essa mudança, para Urbano, faz com o que o financiamento imobiliário fique mais caro. “À medida que você vai diminuindo a capacidade da poupança participar desse mix, você vai aumentando o percentual do dinheiro mais caro e, consequentemente, isso vira juros mais alto para o cliente”, explica. Petrucci complementa “Com toda a oferta de novos produtos, inclusive do Tesouro, não não este de agora, mas todos, a poupança vem tendo uma arrecadação líquida negativa.”

Mas, segundo o economista-chefe do Secovi-SP, o estoque (em torno de R$ 750 bilhões) não vai diminuir ou aumentar devido à criação do Tesouro Reserva. “Para operar na poupança, não precisa ter conta corrente e ainda é isenta de Imposto de Renda. Você não tira uma pessoa disso e ensina a fazer operação pela B3. Por isso acho que não vai afetar significativamente o saldo da poupança”, diz.

A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) segue a mesma linha. “Entendemos que o Tesouro Reserva deve concorrer mais com outros produtos de investimento, como o Tesouro Selic e os CDBs bancários”, diz em nota à EXAME. De acordo com a entidade, a poupança segue tendo papel relevante, embora venha sendo gradualmente complementada por outros instrumentos de mercado, como LCIs, LIGs e CRIs.

Inclusive, para resolver o problema de funding, o Governo Federal anunciou, em outubro do ano passado, a liberação de uma parte do compulsório. Naquele momento, os bancos precisavam manter cerca de 20% dos depósitos da poupança parados no Banco Central como compulsório. No novo modelo, esse percentual foi reduzido em fases: uma liberação imediata de 5%; depois, a partir de 2027, redução em 1,5 ponto percentual por ano, até ser totalmente zerado em aproximadamente uma década.

Na prática, isso significa que o dinheiro que antes ficava “travado” no Banco Central passa a ser gradualmente liberado para o sistema financeiro, aumentando a capacidade de concessão de crédito imobiliário. A ideia é compensar a perda de relevância da poupança como fonte de funding e garantir que o financiamento da casa própria continue crescendo, mas com uma estrutura mais flexível e menos dependente de um único recurso.

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FONTE: EXAME