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20/07/2026

Financiamento imobiliário: nova aposta do governo pode encarecer crédito para compra da casa própria - Estadão

Especialistas avaliam que, se a migração da poupança ganhar força, bancos podem enfrentar custos maiores para financiar casas, apartamentos e terrenos

Por Ana Ayub

A poupança ganhou um novo concorrente lançado como uma alternativa mais rentável para o investidor pessoa física, o Tesouro Reserva, e ele pode mexer com um dos pilares do financiamento imobiliário no Brasil. Se o dinheiro sair da caderneta, o crédito para comprar imóveis pode ficar mais caro em meio à perda de atratividade da poupança.

De todo o depósito direcionado ao financiamento imobiliário, 65% vem da caderneta de poupança. Esse investimento funciona, então, como a principal fonte de recursos das instituições financeiras para garantir o crédito para a compra de casas, apartamentos e terrenos.

A nova concorrência chega em um momento que a poupança já passa por dificuldades: acumulou quatro meses seguidos de saídas líquidas no início de 2026. Em 2025, foram R$ 85,568 bilhões em retiradas, segundo o Banco Central (BC), o quinto ano consecutivo de fuga de recursos.

O resultado se tornou o terceiro mais negativo da série histórica, atrás somente de 2023, quando o saldo foi deficitário em R$ 87,819 bilhões, e de 2022, quando o saque líquido superou os R$ 103 bilhões.

Enquanto isso, o Tesouro Reserva, lançado em 11 de maio, já captou R$ 2 bilhões no primeiro mês de operação.

Com menos dinheiro disponível na poupança, o custo de captação pode subir porque os bancos poderão ser obrigados a recorrer a opções mais caras, o que tende a encarecer a ponta do consumidor, restringir a oferta e, como consequência, desacelerar o mercado de imóveis.

Mas isso realmente pode acontecer?

Embora o Tesouro Reserva ainda esteja em fase inicial de distribuição, especialistas ouvidos pelo E-Investidor avaliam que a preocupação faz sentido. A migração de recursos da poupança para um investimento mais rentável pode reduzir a principal fonte de recursos utilizada pelos bancos para financiar imóveis.

Para Cristiano Luersen, planejador financeiro e sócio da Wiser Investimentos, o Tesouro Reserva tem potencial para substituir a poupança ao longo do tempo.

Dá para dizer com segurança que vai acontecer [substituição da poupança para o Tesouro Reserva], e é possível estimar a direção do movimento, mas o ritmo exato depende de variáveis.

Cristiano Luersen, da Wiser Investimentos

Tal processo, no entanto, será lento, porque envolve uma mudança de comportamento do investidor brasileiro. Segundo Luersen, a poupança acumulou um forte peso cultural ao longo de mais de meio século e continua sendo a primeira opção de milhões de brasileiros quando sobra dinheiro no fim do mês.

O especialista destaca que essa preferência está diretamente ligada aos baixos níveis de educação financeira da população do País. Dados do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) mostram que o Brasil possui 245,5 milhões de contas de poupança e pesquisas do governo apontam que 63% dos brasileiros ainda escolheriam a caderneta para guardar uma sobra de renda.

Para Luersen, o produto “não perdeu clientes por ser bom, perdeu por inércia, por hábito e, em muitos casos, por ausência de uma alternativa verdadeiramente acessível”.

Na avaliação de Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, uma alternativa à poupança finalmente surgiu no mercado financeiro. “O Tesouro Reserva foi criado exatamente para competir com a poupança”, afirma o especialista, destacando que o novo título entrega rendimento equivalente à Selic (taxa básica de juros), liquidez diária e segurança garantida pelo Tesouro Nacional, características que o tornam mais vantajoso para quem busca formar uma reserva financeira.

Segundo Robson Casagrande, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, a perda de espaço da poupança está diretamente ligada ao atual cenário de juros elevados. O especialista explica que, desde que a Selic ultrapassou 8,5% ao ano, a rentabilidade da caderneta passou a ficar limita a 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), reduzindo sua competitividade frente a outros investimentos. “Com a Selic em 14,25% ao ano, a diferença é brutal”, afirma.

Já Filipe Pontual, diretor executivo da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), avalia que esse produto deve ser analisado com cautela. De acordo com o executivo, a caderneta disputa espaço com outros investimentos há vários anos, impulsionada pelo avanço das plataformas digitais e da educação financeira.

 

“O Tesouro Reserva tem uma certa concorrência, já aconteceu, ela avança de qualquer maneira. Não vejo ele afetando muito, pelo menos no curto prazo, essa situação”, afirma.

O que faz o Tesouro Reserva ser mais atrativo que a poupança?

Lançado há um mês pela Secretaria do Tesouro Nacional, em parceria com a B3, a Bolsa de Valores brasileira, e o Banco do Brasil (BBAS3), o Tesouro Reserva surge como uma porta de entrada para investidores iniciantes e como incentivo à educação financeira.

Diferente do Tesouro Selic, o novo título não terá marcação a mercado, ou seja, o investimento cresce de forma linear e previsível, sem oscilações decorrentes da volatilidade do mercado. O produto também rende conforme a taxa Selic, pode ser negociado a qualquer hora do dia, todos os dias da semana, tem aplicação mínima de R$ 1 e limite de R$ 500 mil por investidor ao mês, sem restrição para resgates.

Com tantos benefícios, o Tesouro Reserva, que rende atualmente 14,25% ao ano, se torna um concorrente direto da Poupança. Enquanto a Poupança, com seu retorno de 7,97% ao ano.

Como a mudança pode chegar ao bolso de quem quer financiar um imóvel

O impacto da migração da poupança para o Tesouro Reserva não acontece de forma direta, mas passa pelo modelo de financiamento imobiliário brasileiro. Hoje, boa parte dos empréstimos concedidos pelos bancos é abastecida pelos depósitos feitos na caderneta.

Na prática, quanto maior o volume de dinheiro disponível na poupança, menor tende a ser o custo para os bancos financiarem imóveis. Se essa reserva diminuir, as instituições precisarão recorrer a outras formas de captação, como Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras Imobiliárias Garantidas (LIGs), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Essas alternativas costumam exigir uma remuneração maior ao investidor e, por isso, encarecem o custo de captação. E esse movimento já faz parte da realidade.

Segundo Robson Casagrande, os bancos já vêm diversificando suas fontes de captação nos últimos anos, recorrendo com maior frequência a alternativas para complementar os recursos da poupança. Na avaliação do especialista, o Tesouro Reserva não provoca a mudança, mas pode acelerar uma tendência que já estava em curso.

É justamente esse aumento de custo que pode chegar ao consumidor. Segundo o economista Lucas Girão, o preço do financiamento imobiliário não depende apenas da taxa Selic, mas também da forma como os bancos obtêm os recursos para emprestar. Por isso, mesmo que a taxa básica de juros permaneça estável, uma redução consistente dos depósitos da poupança pode pressionar as taxas cobradas nos financiamentos, além de tornar a concessão do crédito mais seletiva.

A influência do custo de captação sobre o financiamento pode ser percebida pela evolução recente das taxas cobradas pelos bancos. Como mostra o gráfico abaixo, o crédito imobiliário voltou a ficar mais caro nos últimos anos e, segundo os especialistas, uma eventual redução dos recursos da poupança pode dificultar uma queda desses juros.

Mesmo que a Selic seja um dos principais componentes da análise, ela não explica sozinha o comportamento das taxas, já que a disponibilidade de recursos para os bancos também influencia o preço final do crédito e pode ganhar ainda mais relevância caso a poupança continue perdendo espaço como a principal fonte de funding do setor.

Robson Casagrande explica que o mercado ainda conta com uma folga de liquidez proporcionada pela liberação de R$ 38 bilhões do compulsório da poupança, realizada pelo Banco Central em 2025, reforço que ajuda a sustentar a oferta de financiamentos no curto prazo. E o cenário pode mudar quando esse montante de recursos diminuir.

Na avaliação de Pontual, o principal desafio para ampliar o crédito imobiliário continua sendo a redução estrutural dos juros da economia. Hoje, o crédito imobiliário corresponde a cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, patamar que permanece praticamente estável há anos e que, segundo o executivo, só deverá avançar de forma consistente em um ambiente de juros estruturalmente mais baixos.

O lançamento do Tesouro Reserva inaugura uma nova etapa na disputa pelos recursos dos investidores brasileiros. Se o produto ganhar escala e acelerar a saída de depósitos da poupança, os bancos deverão depender cada vez mais de fontes alternativas para financiar imóveis. Esse processo tende a elevar o custo de captação das instituições financeiras e pode tornar o crédito imobiliário mais caro ao longo dos próximos anos, especialmente se os juros permanecerem elevados.

FONTE: ESTADãO