O fim da escala de trabalho 6x1, que é alvo de proposta de emenda constitucional (PEC) encaminhada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), tem tirado o sono do setor da construção civil, que reclama já sofrer com a inflação e a escassez da sua mão de obra.
Esse formato de escala de trabalho, no qual o trabalhador tem apenas uma folga semanal, é o modelo padrão nos canteiros. A proposta encaminhada pelo deputado prevê uma jornada máxima de 36 horas, que podem ser distribuídas em cinco ou quatro dias. Como informou o Valor na sexta-feira (13), o governo já tem uma posição fechada de redução para 40 horas semanais, sem perda de remuneração.
Em coletiva de imprensa neste mês, o presidente-executivo do Secovi-SP (sindicato do setor imobiliário), Ely Wertheim, se posicionou contrário à alteração. “Primeiro, trabalho não mata, não dá câncer. O fato de o cara trabalhar não quer dizer que a vida dele é ruim”, disse.
A entidade enviou um posicionamento sobre o tema, no qual elenca comparações com a produtividade do trabalhador brasileiro e de países desenvolvidos que já adotam uma jornada de trabalho reduzida. “Os países que estão adotando a redução da jornada de trabalho são Noruega, Finlândia, Bélgica, vamos combinar que ainda não estamos lá”, afirmou.
O setor da construção vive, nos últimos meses, uma disparada do custo da mão de obra, que subiu 8,98% em 2025, de acordo com recorte do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), mais do que o dobro do IPCA no período, que ficou em 4,26%.
Ao mesmo tempo, há um envelhecimento dos trabalhadores do setor. Para representantes do mercado imobiliário, a concorrência com trabalhos autônomos, como aplicativos de entrega e de transporte, e programas assistenciais explica a dificuldade em atrair novos funcionários.
“Os empreiteiros que começaram há 40 anos conosco já são avós, e os filhos continuaram trabalhando durante um período, mas os netos não querem trabalhar mais [nas obras], vão buscar trabalho de Uber, de entrega, um trabalho em home office, mais leve”, disse Jorge Cury, novo presidente do Secovi-SP, também na coletiva.
O salário médio de admissão no setor ficou em R$ 2.476,70 no ano passado, segundo maior valor entre os setores, atrás apenas do grupo composto por administração pública, educação, saúde e serviços sociais. O dado foi apresentado na coletiva de outra entidade do setor, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), na última quarta-feira (11). Em 2025, o volume de empregados com carteira assinada na construção cresceu 3,1%, para 2,94 milhões. O segmento que mais puxou o aumento foi o de construção de edifícios, cujo aumento foi de 3,94%.
“O custo da mão de obra é um dos pontos de preocupação do setor de construção”, lembrou Fernando Guedes Ferreira, presidente-executivo da entidade. “ É um ponto de atenção sobre eventual transferência para o preço final [dos imóveis]”, disse.
Questionado sobre o possível impacto do fim da escala 6x1, ele afirmou defender “um debate mais amplo” sobre o tema. Fazer a redução sem outras medidas macroeconômicas que incidam sobre o custo de contratação poderia encarecer a mão de obra e afetar o pico de novas contratações que se espera que a medida possa trazer.
Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Cbic, destacou que o custo total da mão de obra, para o empregador, pode ultrapassar 150%, com os encargos trabalhistas. “[Também] temos informalidade muito grande, precisamos resolver esses problemas estruturais primeiro”, disse Ferreira.
Ainda assim, já é esperado que o projeto de redução de jornada vá ser aprovado. De acordo com os representantes do Secovi-SP, o fato de ser um ano eleitoral - e a medida, popular - deve garantir sua aprovação.
A expectativa do Secovi-SP é poder trabalhar na regulamentação da lei, apresentando o ponto de vista do setor da construção, juntamente com outros segmentos, como o hospitalar.
“Se sair uma regulamentação que disser que vai ser aplicado do jeito que está proposto, nós vamos ter que mexer no prazo das obras, sem dúvida, e provavelmente no preço [dos imóveis]”, disse Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP.
A entidade defende, como alternativa, que haja liberdade para aplicação da redução de jornada via convenção coletiva, com acordos dentro de cada setor.