Por Vinícius Lucena
A construção manteve o ritmo de geração de empregos em 2026 e voltou a ultrapassar, em fevereiro, a marca de 3 milhões de trabalhadores com carteira assinada no país, de acordo com dados do Novo Caged, divulgados no fim de março pelo Ministério do Trabalho.
O número está próximo das máximas históricas e já tinha sido alcançado em meados do ano passado, no entanto, nos últimos meses do ano, voltou à marca dos 2 milhões por uma retração sazonal comum de fim de ano.
Em fevereiro, o setor criou 31,1 mil novos postos, segundo mês consecutivo de saldo positivo (50,5 mil em janeiro). No entanto, o volume do mês é menor do que o do mesmo período do ano passado, quando houve 34,7 mil contratações, o que indica uma desaceleração do ritmo de crescimento, segundo a pesquisadora da área de economia aplicada do FGV Ibre, Janaína Feijó.
“O dado de fevereiro mostra já uma certa acomodação do emprego. Naturalmente, com o tempo, o volume vai aumentando, mas a velocidade em que esse volume de trabalhadores cresce vai diminuindo. E o que nós temos para 2026 é uma acomodação geral do mercado de trabalho. Obviamente que pode ter aí choques que mexem com esse mercado de trabalho, depende muito dos estímulos que o governo federal vai soltar na economia”, avalia.
A pesquisadora destaca que o principal impulso do setor no ano deve ser em obras de infraestrutura a serem finalizadas no primeiro semestre. “Então, conforme for passar esse período eleitoreiro, ou até mesmo no segundo semestre de 2026, a gente já pode ver um arrefecimento ou um incremento muito pequeno na quantidade de trabalhadores”, afirma.
A coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre, Ana Maria Castelo, também vê o período de eleições como forte impulsionador do emprego na construção civil e espera que o setor deve se aquecer ainda mais.
Em sua análise, ela afirma que o setor segue resiliente, mesmo frente a uma taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados. “Nos dois primeiros meses do ano, enquanto o saldo líquido de empregos gerados no país caiu quase 40%, na construção cresceu 3%”, diz. Para além das obras de infraestrutura, a pesquisadora destaca a ampliação do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que hoje é responsável por mais da metade da produção nacional de imóveis.
“Se a gente olhar o ciclo de negócios, o Minha Casa, Minha Vida bombou o ano passado. Então, a gente vai ter de novo o mercado imobiliário retomando o forte em função do programa, com a infraestrutura sendo uma força adicional. Então, além dos investimentos privados, que têm predominado no âmbito da infraestrutura, a gente deve ter investimentos privados, que têm predominado no âmbito da infraestrutura, a gente deve ter investimentos públicos em função de um ano de eleição. Como perspectiva, eu diria que esse mercado não só se mantém aquecido, mas pode até aquecer ainda mais”, avalia.
A pesquisadora pondera que a sustentação desse ciclo está fortemente relacionada à própria capacidade dos orçamentos da habitação com base no FGTS continuarem impulsionando o MCMV. Ainda segundo Castelo, as sondagens do setor de construção do FGV Ibre têm mostrado que a escassez de mão de obra é a principal limitação para o crescimento das empresas. A afirmação é corroborada por representantes do setor.
De acordo com Ieda Vasconcelos, economista-chefe da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) os desafios para captação de mão de obra vão desde o trabalho especializado ao não especializado.
“O mercado de trabalho nacional vivencia, neste momento, praticamente um pleno emprego. Nós temos uma taxa de desemprego muito baixa. Praticamente todos segmentos produtivos da economia estão com dificuldades de contratação de mão de obra”, afirma.
“A continuidade de contratação será positiva e deverá continuar acontecendo para suprir os patamares de atividade que nós estamos vivenciando. Desde o início da pandemia, a gente já gerou quase 1 milhão de novos empregos”, completa a representante do setor.
Frente a este contexto, resta às construtoras oferecerem condições mais atrativas a fim de captar mais trabalhadores. Atualmente, o salário médio de admissão da construção civil é o segundo maior (R$ 2.527,38), abaixo apenas da categoria da administração pública (R$ 2.346,97).
“Nós estamos passando por uma escassez de mão de obra em que muitas vezes as pessoas não se veem mais trabalhando na construção civil. A única forma de atrair essas pessoas é aumentando o salário”, diz Janaína Feijó, do FGV Ibre.
De acordo com, Yorki Oswaldo Estefan, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), o principal desafio está na captação de jovens. O representante da entidade patronal defende a ampliação de iniciativas de capacitação, como a parceria de construtoras com o Senai, em São Paulo, e a maior implementação de uma “trilha profissional”, uma espécie de plano de carreira que se projeta desde a entrada do profissional na construtora.
“Acho que o principal problema nosso é conscientizar o jovem de que o salário de entrada é um pouquinho menor do que se ele estivesse no mercado informal - motoboy, por exemplo. Mas ficando na construção civil ele tem a possibilidade de chegar a mais de R$ 13 mil de salário, o que não dá para alcançar como motoboy e motorista de aplicativo”, avalia
Segundo Ana Maria Castelo, essa é uma questão que permeia a construção civil em um âmbito mundial, pois o setor tem características inerentes que dificultam a atração de mão de obra. “No caso do Brasil, a gente tem uma dificuldade adicional porque é um setor ainda pouco modernizado, pouco industrializado”, afirma a pesquisadora.
O presidente do Sinduscon ainda aponta para iniciativas de incentivo à participação feminina no mercado da construção civil. Atualmente, apenas 12% dos trabalhadores nos canteiros de obras são mulheres no Brasil. Para avançar nesse cenário, a entidade mantém, desde abril de 2025, parceria com a ONG Mulher em Construção, iniciativa voltada à capacitação e inserção de mulheres, especialmente em situação de vulnerabilidade social, no mercado formal da construção civil.
O programa oferece formação prática em atividades como pintura, revestimentos, elétrica e hidráulica, além de preparar as participantes para a empregabilidade em construtoras associadas. “A construção civil está se adequando, principalmente na parte de estruturas de canteiro, como banheiros femininos separados, para poder receber essas profissionais”, afirma.