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03/03/2026

Edifício que já foi da Telesp dará lugar a complexo com apartamento de R$ 3 mi e 'food hall' no térreo - Folha de São Paulo

Ao lado do metrô República, projeto aposta na valorização do centro com mudança da sede do governo. Misto de residencial e polo gastronômico, empreendimento deve ser inaugurado em julho.

Por Danielle Madureira

O empreendimento que vai ocupar o lugar que já foi sede da Telesp (Telecomunicações de São Paulo), no centro histórico de São Paulo, deveria ter ficado pronto em junho de 2025, mas atrasou e agora deve ser inaugurado em julho deste ano. Ao lado do metrô República, vai reunir um polo gastronômico e de eventos, o Ramal, e um complexo imobiliário residencial, o Basílio 177.

O atraso não parece ser problema para Bruno Scacchetti, CEO da Metaforma, a incorporadora que montou um fundo imobiliário com os investidores BR Capital, Unitas, Starboard Partners e Maker Uno para bancar o espaço. "O importante é que vamos inaugurar um empreendimento único, em uma região que promete ser uma das melhores de São Paulo na próxima década", afirma.

Nesta quinta (26), o consórcio MEZ-RZK Novo Centro venceu o leilão para a concessão da PPP (Parceria Público-Privada) do novo centro administrativo do Governo de São Paulo, que será instalado no bairro de Campos Elíseos. O lançamento é o primeiro de fôlego a ser inaugurado na região central da capital paulista desde que a mudança foi anunciada pelo governo.

Scacchetti não divulga o investimento total no empreendimento, que terá VGV (valor geral de vendas) de R$ 280 milhões e três torres de apartamentos: uma restaurada (de 1939, projetada pelo Escritorio Tecnico Ramos de Azevedo e Severo Villares), uma modernizada (dos anos 1950) e uma nova torre. Ao todo, são 274 apartamentos, que variam de 35 m2 a 130 m2, com preços que vão de R$ 600 mil a R$ 3 milhões.

As duas torres mais antigas têm dez andares cada uma e a mais nova tem 13 por causa da diferença de pé direito. Em um espaço de 35 mil m2, o empreendimento sob a responsabilidade da construtora Rocontec vai contar com academia, brinquedoteca, salão de festas, piscina e bar no topo (rooftop).

No térreo do Basílio 177 vai funcionar o Ramal, uma galeria que interliga as ruas Basílio da Gama e 7 de Abril, atravessando todo o quarteirão, em 3.000 m2. Com investimentos de R$ 50 milhões, o lugar vai funcionar nos moldes de um "food hall", conceito apresentado como a evolução da praça de alimentação: 25 restaurantes diferentes funcionam no espaço, com serviço unificado.

Dessa forma, o cliente escolhe o que comer e beber, mas o atendimento e a conta serão um só. Com música ao vivo, exposições e espaço para eventos, o Ramal será capitaneado pela Fábrica de Bares, dos mesmos donos do Bar Brahma, Blue Note e Riviera, entre outros estabelecimentos da capital paulista.

"A gente tem o sonho de não fechar, de ficar aberto 24 horas, mas quem vai definir isso é o cliente", diz Cairê Aoas, fundador da Fábrica de Bares. Com curadoria gastronômica de Rosa Moraes, responsável pela seleção dos 50 melhores restaurantes da América Latina para o ranking britânico 50 Best, o espaço terá capacidade para 600 lugares e expectativa de receber mais de 100 mil pessoas por mês.

"Serão 25 opções de restaurantes, cada um com o seu DNA, com um cardápio enxuto, de até sete itens por menu, para o cliente provar a gastronomia autoral de chefs reconhecidos, a um preço mais acessível", diz Felipe Braga, diretor de marketing da Metaforma. A comida terá um custo médio entre R$ 50 e R$ 60 por refeição.

Metaforma e Fábrica de Bares tentaram trazer para São Paulo a franquia Time Out Market, de polos gastronômicos no modelo "food hall", presente em Lisboa, Nova York e Chicago, entre outras grandes cidades. Mas as negociações não evoluíram por causa dos altos valores exigidos.

"É a primeira iniciativa de ter um centro gastronômico que promova toda a diversidade cultural da capital no centro da cidade, uma região acessível para todos", diz Cairê. "Vamos juntar o que São Paulo tem de melhor."

Em estilo art deco e inaugurado em 1939, o edifício é tombado desde 1992, o que significa que deve preservar as características externas. Ao longo da galeria que vai interligar as ruas 7 de Abril e Basílio da Gama, serão dispostos maquinários que faziam parte das operações de telefonia do edifício.

O local nasceu para abrigar a CTB (Companhia Telefônica Brasileira), a principal empresa de telefonia no Brasil até os anos 1960. Integrava o grupo canadense Light, que também operava nas áreas de energia e transportes. Nos anos 1970, com a criação do Sistema Telebras, os serviços e o edifício passaram para a Telesp. Com a privatização do setor em 1998, mudou para Telefonica. Moradores da capital costumavam ir à central telefônica para fazer interurbanos para outras cidades do país ou para o exterior. No local eram vendidas fichas para uso em orelhões em cabines.

GENTRIFICACAO

O empreendimento está inserido no programa Requalifica Centro da prefeitura, que oferece incentivos fiscais para estimular a modernização (retrofit) de prédios antigos na região. Urbanistas apoiam a proposta de combater o esvaziamento da área, promover a habitação e impulsionar a economia, mas questionam a maneira como esse tipo de programa é promovido.

"Cerca de 80% do deficit habitacional da cidade de São Paulo está na faixa de 0 a 3 salários mínimos", diz Raquel Rolnik, professora titular da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). "Quantas famílias têm capital para morar em um apartamento de R$ 3 milhões?", questiona a arquiteta. "A mudança não vai melhorar as condições dos moradores do centro, mas valorizar a área a ponto de expulsá-los de lá."

Kazuo Nakano, professor do Instituto das Cidades da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que o projeto de mudança da sede do governo para Campos Elíseos pode levar o centro à gentrificação, quando bairros históricos ou populares são convertidos em áreas nobres.

"O poder público precisa garantir o interesse coletivo, que moradias populares, inclusive de baixa renda, possam continuar existindo na região, envolvendo comércio e serviços para este público", afirma.

De acordo com a assessoria de imprensa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o objetivo do projeto é requalificar o centro e torná-lo mais seguro e valorizado.

Hoje, 12 das 24 secretarias do estado estão no centro da capital, como Fazenda, Justiça, Educação e Segurança Pública. Também estão grandes departamentos como Detran, DER e DAEE.

 

O governo afirma, porém, que "as estruturas estão distribuídas em 44 endereços distintos, o que gera dispersão operacional e contratos pulverizados de locação, manutenção, segurança e logística; a centralização permitirá racionalizar serviços e reduzir despesas recorrentes ao longo do contrato". A conclusão do projeto é estimada para 2030.

FONTE: FOLHA DE SãO PAULO