Notícias

12/01/2026

Condomínio vira o ‘aluguel do proprietário’ e sobe acima da inflação desde 2022; entenda - Estadão

Custo eterno pressiona orçamento das famílias e cresce por conta de mão de obra e manutenção; veja quanto custa na sua região

A taxa de condomínio vem subindo acima do IPCA e do IGP-M nos últimos anos. Desde 2022, a taxa subiu 25%, em um ritmo de crescimento anual de mais de 6% ao ano. No período, a inflação oficial ficou na casa dos 19%. Em 2025, a previsão da uCondo, empresa de tecnologia condominial responsável pelo levantamento, é de que o reajuste do valor médio da taxa seja novamente na casa dos 6%, enquanto o IPCA terminou o ano com alta de 4,26% e o IGP-M teve queda de 1,05%.

Segundo especialistas, a taxa tem se tornado uma espécie de “aluguel do proprietário”, para quem é dono, ou um segundo aluguel para quem é inquilino. Mesmo quem é dono do imóvel precisará arcar com o pagamento do condomínio enquanto estiver com o imóvel.

O levantamento aponta que a média nacional da taxa condominial foi de R$ 413 no primeiro semestre de 2022 para R$ 516 no primeiro semestre de 2025, uma alta de R$ 103, ou 24,9%, no período. Uma das principais razões para o aumento de preços é a inadimplência, que terminou o terceiro trimestre de 2025 em 11,82% -considerando somente atrasos superiores a 30 dias.

No balanço financeiro dos condomínios, a falta de pagamento de alguns proprietários acarreta reajustes para quem paga a conta em dia, uma vez que o orçamento precisa ter uma certa folga para lidar com atrasos.

De acordo com Léo Mack, cofundador e chefe de operações (COO) da uCondo, o aumento da inadimplência na taxa de condomínio está ligado ao patamar elevado da taxa básica de juros, a Selic, que encarece o crédito pessoal e pressiona a renda familiar.

“A inadimplência está realmente espalhada, não há uma concentração. O que a gente compreende é que quem mora em um condomínio classe A, por exemplo, vai ter essas dificuldades e buscar um condomínio classe B. Quem mora num condomínio classe B vai morar num condomínio classe C, e assim por diante”, diz.

Mack diz ainda que o problema da inadimplência condominial demonstra que a renda do brasileiro está comprometida em um nível que requer atenção, uma vez que afeta o custo da moradia, um gasto essencial. Vale lembrar que a inadimplência de contas de condomínio, assim como a parcela do financiamento de um imóvel, pode levar o bem a leilão judicial.

“Quando a inadimplência chega à taxa condominial, é porque há um problema financeiro familiar. Entre deixar de pagar uma fatura do cartão de crédito ou uma taxa condominial, o consumidor vai deixar de pagar o cartão de crédito, deixar de sair no fim de semana. Quando chega ao condomínio, o próximo item a ser cortado é a alimentação”, afirma Mack.

O Censo Condominial da uCondo conta com dados do IBGE, da Receita Federal e da base da própria empresa, que atende 6 mil condomínios e mais de 560 mil usuários no País.               O Censo Condominial da uCondo conta com dados do IBGE, da Receita Federal e da base da própria empresa, que atende 6 mil condomínios e mais de 560 mil usuários no País.

Marcello Romero, CEO da consultoria imobiliária Bossa Nova Sotheby’ International Realty, lembra que uma tendência entre as construtoras tem aumentado as taxas de condomínio: a ampla oferta de itens nas áreas comuns dos prédios. Se antes a praxe era ter salão de festas e quadra de futebol, artigos como piscina, academia, spa, pet place, quadra de tênis ou pickleball se tornaram mais comuns nos lançamentos imobiliários. É o conceito chamado de condomínio-clube. A diferença é que não é possível cancelar a taxa de associação desse clube, já que ele faz parte do imóvel.

No entanto, apesar do impacto futuro na estrutura de custos dos condomínios, com o envelhecimento dos equipamentos e das áreas comuns dos prédios, não é esse o fator principal que encarece as taxas. “Basicamente, o aumento da taxa ocorre por causa do aumento no custo da mão de obra. Uma das maiores rubricas, se não a maior, é a do custo com vigilância e segurança. Nos condomínios de alto padrão, esses itens são praticamente obrigatórios. Depois, tem limpeza e manutenção”, afirma.

O executivo diz ainda que um novo movimento começa a ocorrer no mercado: uma retomada da procura por casas. Ele diz que as vendas na imobiliária, especializada em imóveis acima de R$ 2 milhões, foram de 20% para 30% do total no ano passado. “Uma parte dessas pessoas está tomando a decisão de ir para uma casa de rua, porque estão cansadas primeiro do convívio dentro do condomínio, mas também pela questão dos custos de IPTU e condomínio”, diz.

Manutenção cara

Para Carlos Honorato, professor de economia na FIA Business School, um dos vilões do aumento dos condomínios é o custo de manutenção dos edifícios, que subiu porque os preços de insumos e materiais necessários para a operação aumentaram acima da inflação. O professor observa ainda que hoje as taxas condominiais partem de um piso muito alto, independentemente do número de unidades ou do tamanho do apartamento.

“O condomínio acaba sendo pior do que uma prestação, porque, mesmo que dure 30 anos, você sabe que o financiamento vai acabar. O condomínio é eterno. O grande problema é que ele se torna um custo fixo. Às vezes, quando as pessoas vão comprar um imóvel, elas não olham para isso”, afirma.

Honorato lembra que a gestão condominial ainda tem muitos profissionais amadores, como moradores que se tornam síndicos como um segundo emprego, o que pode levar a problemas de administração das contas do prédio.

“Há também o risco de ser surpreendido por um caso de corrupção na gestão do condomínio, de gente que desvia dinheiro, de compras que não são bem cotadas. É esse conjunto de coisas que pode levar o condomínio a se tornar um grande problema na vida da pessoa. E aí ele vira um segundo aluguel”, diz o professor.

Os especialistas afirmam ainda que a taxa de condomínio elevada reduz a liquidez de um apartamento, seja para a venda seja ou para locação. Sendo assim, a administração do condomínio pode precisar tomar medidas para reduzir os custos, resultando em posterior controle ou mesmo queda de valor na taxa.

Se não forem controlados, os custos de condomínio podem se tornar um peso no orçamento familiar de grande parte da população brasileira, especialmente na cidade de São Paulo. No ano passado, a capital paulista atingiu o marco inédito de 150 mil apartamentos lançados em 12 meses. Mesmo que bem administrados, os prédios trazem a conta perene ao orçamento das famílias.

Redução de custos

Como o custo dos funcionários é responsável por cerca de metade do orçamento de um condomínio residencial, uma das principais medidas para reduzir o valor da taxa de condomínio tem sido a adoção de serviços de portaria remoto 24 horas. Nesse caso, o condomínio reduz a quantidade de funcionários a um nível mínimo, mantendo, por exemplo, um zelador e contratando um serviço de limpeza terceirizado.

De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese), o mercado de segurança eletrônica brasileiro teve faturamento médio de R$ 14 bilhões em 2024, uma alta anual de 16,1%. A estimativa é de que o ano de 2025 tenha fechado com alta de 23,7%.

A associação aponta que a portaria remota, que pode reduzir custos operacionais em até 60%, já é utilizada em mais de 14 mil condomínios. A solução não é livre de problemas, por exemplo, para condomínios que permitem locação de curta duração. A maior rotatividade de pessoas no prédio pode se tornar um entrave que seria mais facilmente resolvido com a presença física de profissionais na portaria, segundo Honorato.

Já outros custos ligados à manutenção do condomínio podem ser reduzidos com revisões periódicas e com a criação de um fundo de reserva, mas eventualmente grandes consertos e modernizações precisam ser feitas para manter a qualidade de vida no prédio e, portanto, o valor dos apartamentos. O elevador, por exemplo, é o maior e mais comum custo de manutenção. Uma reforma desses equipamentos pode passar de R$ 100 mil, e quanto menos moradores existirem no prédio para diluir o custo, maior será a conta individual.

FONTE: ESTADãO