Por Hamilton Ferrari, Álvaro Campos e Rita Azevedo
O endividamento das famílias superou em agosto, pela primeira vez, a marca de 50% do rendimento acumulado em 12 meses, passando de 49,9% para 50,1%, reflexo dos juros altos. E, segundo o Banco Central (BC), o comprometimento de renda mensal das famílias com o pagamento de dívidas atingiu o maior percentual da série iniciada em 2005 - subindo de 28,8% para 29%. Nesse cenário, a inadimplência das pessoas físicas com recursos livres alcançou em setembro 8,1%, também recorde. Em agosto, estava em 8%.
Com muitas famílias excessivamente endividadas e inadimplentes, as perspectivas para o consumo privado são desfavoráveis - no 2º trimestre, o indicador já havia caído 0,4% em relação ao anterior. É nesse ambiente que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai se reunir na semana que vem para definir a Selic, hoje em 13,75% ao ano. A economia em desaceleração, com endividamento e inadimplência recordes, aponta a continuidade dos cortes da taxa, mas a inflação corrente e as expectativas inflacionárias ainda estão longe da meta perseguida pelo BC, de 3%. Além disso, o dólar e os juros futuros subiram após a vitória do presidente Lula, pela percepção de que o governo não tomará medidas mais duras de ajuste fiscal.
Segundo a analista Sara Paixão, da InvestSmart XP, as perspectivas de desaceleração da economia em 2027 podem tornar as finanças das famílias ainda mais complicadas. “Um crescimento mais fraco [do PIB] pode afetar a geração de empregos e elevar o desemprego, comprometendo a capacidade de pagamento das famílias e dificultando a queda da inadimplência”, diz ela, destacando que fatores estruturais, como os juros elevados, têm pressionado os índices de atraso no pagamento de dívidas, apesar de programas de renegociação de débitos como o Desenrola.
Com a alta dos juros futuros nos últimos dias, os bancos que atuam com financiamento imobiliário começaram a aumentar as taxas. O Itaú Unibanco elevou a taxa mínima de 11,89% para 12,95% ao ano, mesmo caminho do Bradesco. No banco, a taxa de crédito imobiliário subiu 3,3 pontos percentuais, para TR mais 14,2% na linha principal. Para clientes private, o ajuste foi de 2,15 pontos, para TR mais 13,6%. No Santander, a taxa mínima aumentou de 11,69% para 12,49% mais TR.