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09/01/2019

Caixa tem juro maior para classe média e perde espaço para rivais privados

A redução da fatia da Caixa fica ainda mais evidente considerando que o financiamento imobiliário com dinheiro da caderneta, o chamado SBPE, cresceu no ano passado

A Caixa Econômica Federal já pratica taxas de juros no crédito imobiliário superiores às dos concorrentes privados, o que fez com que o banco da habitação perdesse espaço nas operações com recursos da poupança, mais utilizadas pela classe média, no ano passado.

No acumulado de 2018 até novembro, a participação da instituição pública caiu de 40,43% para 22,31%, conforme dados obtidos pelo Estadão/Broadcast, como resultado de uma política mais rígida para emprestar adotada pelo banco no intuito de reforçar seus indicadores de capital.

A redução da fatia da Caixa fica ainda mais evidente considerando que o financiamento imobiliário com dinheiro da caderneta, o chamado SBPE, cresceu no ano passado. Até novembro, foram concedidos R$ 51,33 bilhões em novos financiamentos, ante R$ 39,466 bilhões de igual período do ano passado. Enquanto o banco da habitação perdeu espaço, todos os concorrentes privados avançaram. O banco que mais ganhou mercado foi o Bradesco, cuja fatia passou de 18,21% em 2017 para 26,30%, considerando dados até novembro.

Ao tomar posse na segunda-feira, o novo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse que o foco “número 1” da instituição será atender a população de baixa renda e que a classe média terá de pagar mais para tomar recursos para a compra da casa própria no banco. “Não será juro do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que é para quem é pobre. A classe média tem de pagar mais ou vai buscar no Santander, Bradesco, Itaú. Na Caixa, vai pagar juro maior que Minha Casa, Minha Vida, certamente, e vai ser um juro de mercado. A Caixa vai respeitar acima de tudo mercado, lei da oferta e da demanda”, afirmou. Na terça-feira, no entanto, Guimarães negou que o banco vá aumentar os juros para a classe média.

Mais cara - A Caixa já diferencia juros dos financiamentos imobiliários voltados às famílias mais pobres das operações direcionadas aos clientes de classe média. Dados do Banco Central mostram que o juro praticado pelo banco estatal nas linhas que concorrem com os privados – segmento conhecido como “taxas de mercado” – é o maior entre todas as instituições financeiras.

Em novembro de 2018, a Caixa cobrou juro médio de 11,54% ao ano nos financiamentos imobiliários com juros de mercado. Foi o crédito mais caro entre os nove bancos que emprestaram recursos nessa operação naquele mês. O Banco do Brasil, por exemplo, cobrou taxa de 9,86% ao ano e o Bradesco praticou média de 9,34%. O Itaú Unibanco foi o mais barato do mercado, com 8,66%. Conforme a série histórica do BC, a Caixa é a mais cara pelo menos desde 2015, ainda no governo Dilma Rousseff.

Nas operações para baixa renda e juros regulados ocorre exatamente o contrário. Em novembro de 2018, a Caixa cobrou juro médio de 7% ao ano, o mais baixo entre as 12 casas que atuam no segmento. Nessa operação, o BB praticou juro de 7,79%, o Bradesco cobrou 8,86% e o Itaú teve média de 9,36% – a mais alta no ranking.

Preocupação - A despeito da polêmica em torno do patamar da taxa cobrada pela instituição pública no crédito imobiliário para a classe média, o que despertou a preocupação da concorrência foi o anúncio, também feito na segunda-feira, de que a Caixa vai vender até R$ 100 bilhões em operações de crédito imobiliário, em uma operação conhecida como securitização – em que os ativos são agrupados e convertidos em títulos que podem ser negociados no mercado de capitais. Isso aumentaria a capacidade do banco em fazer novas operações com recursos levantados por essas operações.

Líder no mercado de habitação, o banco público detém uma carteira de R$ 440,5 bilhões, conforme dados até setembro de 2018. Desse total, R$ 258,5 bilhões foram emprestados com recursos FGTS e R$ 182,0 bilhões com dinheiro oriundo da Caixa/SBPE. Esse montante garante ao banco 69,5% de participação no mercado de crédito imobiliário.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO