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17/09/2026

BC reduz Selic para 13,75% e deixa em aberto novos cortes – Valor Econômico

Economistas afirmam que próximos passos do Copom estão condicionados a uma política fiscal crível do próximo governo

Por Arthur Cagliari, Bruna Furlani e Hamilton Ferrari - De São Paulo e Brasília

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu nesta quarta-feira a taxa básica Selic em 0,25 ponto percentual para 13,75%, deixando em aberto qual vai ser o próximo passo na política monetária. Ainda que parte do mercado espere ao menos mais um corte neste ano, a dúvida sobre o ciclo permanece, em especial por conta das incertezas em torno da política fiscal que poderá ser redesenhada após as eleições.

O comunicado sobre a decisão foi pouco discrepante em relação ao último texto. A diretoria, no entanto, foi mais enfática ao dizer que os indicadores mostram agora uma moderação gradual da atividade econômica, e fez um destaque de que esse efeito tem sido registrado nos setores mais cíclicos, “embora ainda em patamar resiliente”. O BC também destacou que a média das medidas subjacentes de inflação desacelerou, situando-se “abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, porém ainda acima da meta”.

Na visão de economistas ouvidos pelo Valor, houve por parte do BC um reconhecimento de que os juros elevados têm tido efeito na economia. “Foi um texto bastante semelhante, com pequenas diferenças. Uma delas foi a mudança do ‘sugerir uma desaceleração’ por ‘mostrar uma desaceleração’ e outra foi sobre o impacto na inflação, agora mais perceptível tanto na inflação cheia como nos dados subjacentes”, diz o economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboim. “Sem dúvida é um sinal de reconhecimento do efeito da política monetária na economia.”

Barenboim diz manter sua projeção de 13,50% para o fim do ano, mas diz que as variáveis o levaram a pensar que caberia até um nível mais baixo. “Confesso que fiquei com vontade. O problema é que falta convicção de que o cenário atual vai continuar [ajudando]”, diz, fazendo referência à desaceleração da economia e à perspectiva de inflação perdendo força. “Não dá para saber o que esperar da guerra. Se o petróleo continuar a subir, as coisas mudam”, afirma.

Para o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, ainda que com poucas alterações, o texto teve um tom mais “dovish” (favorável a corte de juros). Um dos pontos em que ele observa essa postura foi na retirada do advérbio “ligeiramente” do trecho em que o BC afirmava que a média das medidas subjacentes desaceleraram. “O BC também optou por manter a projeção de 3,2% para a inflação no horizonte relevante, embora o mercado estivesse um pouco dividido sobre o percentual”, diz. “Além disso, o Copom não mencionou que o cenário global está mais desafiador com os juros globais de longo prazo subindo, o que também seria um sinal mais ‘dovish’.”

“O custo-benefício de mudar o cenário-base para a Selic hoje é desvantajoso, com as eleições” - Felipe Oliveira

O viés menos conservador também foi observado pela economista-chefe da Canvas Capital, Camila Faria Lima. Para ela, porém, isso ficou mais claro quando o BC optou por não mudar o parágrafo sobre o que esperar para as próximas reuniões. “Ao fazer um texto quase sem alteração, em especial no trecho sobre a decisão em si, o BC não fecha a porta para novos cortes, pelo contrário, deixa ela aberta. Para mim, isso é um sinal de continuidade”, diz.

Por ora, a economista afirma que irá permanecer com sua projeção de 13,50% para a Selic no fim do ano, mas não descarta uma nova redução mais para frente, caso o cenário se mantenha favorável. “Se eu tivesse que colocar uma alternativa à minha projeção não seria a de um ‘não corte’, mas sim de mais corte e continuidade do ciclo”, aponta.

O que deve entrar no radar dos economistas daqui em diante é a política fiscal que será apresentada pelo presidente eleito. “O que vemos agora é que os dados que temos, mais conjunturais, permitem que o ciclo de corte continue. Até onde poderemos cortar vai depender de uma discussão estrutural”, afirma Faria Lima.

O fato de o BC ter deixado incerto o próximo passo é justamente porque haverá as eleições no caminho, avalia o economista-chefe da MAG Investimentos, Felipe Rodrigo de Oliveira. “O BC deixou as portas abertas para avaliar o que vai ter de política fiscal após as eleições. Assim, ele poderá ter mais clareza do que vai ser a política fiscal do próximo governo para cortar de maneira segura, em um ‘pace’ [ritmo] cadenciado de 0,25.”

Diante do alto grau de incerteza sobre o desfecho do pleito eleitoral, o economista da MAG diz que permanece com a projeção de Selic para o fim do ano em 13,75%. “O custo-benefício de mudar o cenário hoje é desvantajoso. Melhor ver qual será o plano econômico de 2027 e fazer um cenário mais fundamentado. A depender do resultado, o BC irá cortar mais 0,50 ponto e isso seria bem pouco. Ainda estaríamos falando de um juro muito alto.”

Chermont, da Quantitas, também vê as eleições como um fator capaz de alterar a leitura do Copom sobre a economia. “O BC roda o modelo dele cerca de 10 dias antes da reunião. Se a oposição ganhar, o BC vai conseguir entender melhor o novo desenho do governo só na reunião de dezembro. Se a projeção de inflação mais longa do [relatório] Focus cair e houver uma descompressão de riscos, podemos discutir uma queda de 0,50 ponto na última reunião do ano.”

Já se for o contrário, Chermont diz esperar que as projeções mais longas do Focus não recuem, mas que o câmbio continue em um patamar mais “comportado” devido ao diferencial de juros. “Se o Lula ganhar, o limite de juros vai ser o 13,25%, a nossa projeção”.

Já Barenboim, da Reach, avalia que, se a atividade perder mais força e a inflação não piorar, o BC terá espaço para cortar, independentemente das eleições e de uma alta do Federal Reserve (Fed). “Em um dia, nosso ‘spread’ [diferencial de juros] caiu 0,50 ponto, porque cortamos [juros] e eles subiram. O que aconteceu? O euro ficou pressionado, mas o real ficou parado, duro igual uma rocha. Talvez isso seja uma sinalização boa para o BC de que o ciclo pode continuar.”

FONTE: VALOR ECONôMICO