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21/08/2026

Bancos pedem mais um ano para início de novo modelo de crédito imobiliário – Valor Econômico

Novas regras, que preveem fim gradual do direcionamento da poupança, começam em 2027, mas não funcionariam bem com juro alto, dizem executivos

Por Rita Azevedo

Bancos que atuam com financiamento de imóveis devem pedir ao Banco Central (BC) a postergação do início da vigência das novas regras de crédito imobiliário. O modelo entra em vigor em janeiro de 2027 e a ideia é que o prazo seja postergado em um ano, segundo fontes.

Como mostrou o Valor nesta semana, outra alternativa defendida pelas instituições financeiras é a revisão do teto de juros de 12% previsto no modelo. Os pedidos serão formalizados em breve ao BC, que pediu um prazo de dois meses para avaliação, disse uma fonte que acompanha as conversas. Procurado, o BC não comentou.

As instituições argumentam que quando as regras foram desenhadas, ainda em 2025, as previsões eram de cortes acelerados da Selic, o que acabou não acontecendo. Com a taxa básica de juros hoje em 14%, oferecer crédito a 12% seria difícil, sobretudo em um contexto em que os bancos devem usar cada vez menos recursos fora da poupança e mais do mercado de capitais.

Uma das principais mudanças trazidas pelo novo modelo é nas regras do uso da poupança. A norma antiga previa que 65% dos recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) precisavam ser direcionados para o crédito imobiliário, 20% ficavam com o BC na forma de recolhimento compulsório e outros 15% eram de uso livre pelos bancos.

Com as regras novas, o volume da poupança a ser aplicado em operações imobiliárias será elevado gradualmente. Neste ano, com o início da fase de testes, os compulsórios foram cortados de 20% para 15%. Pelo cronograma original, a partir de 2027, eles serão reduzidos em 1,5 ponto percentual por ano.

Quando estiver plenamente implementado o modelo, se uma instituição captar no mercado R$ 1 milhão e direcionar integralmente esse montante para financiamento imobiliário, ela poderá usar a mesma quantia captada na poupança, que tem custo mais baixo, para aplicações livres por um período predeterminado.

Só que, para isso, 80% do volume deverá ser destinado para financiamentos habitacionais contratados no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação (SFH), cujo custo efetivo está limitado a 12% ao ano.

Nesta semana, o diretor de regulação, Gilneu Vivan, disse que um dos pontos mais debatidos na implementação está na obrigação de alocação de 80% dos recursos em operações que atendam às condições do Sistema Financeiro de Habitação (SFH). Ele também sinalizou possíveis ajustes. “Assim como em qualquer ação regulatória, o novo modelo está em permanente reavaliação, não só quanto aos efeitos produzidos no período de testes, mas sobre toda a sua vigência, com a atuação do Banco Central atento para eventuais ajustes, buscando garantir a estabilidade e eficiência do mercado e o melhor interesse público”, afirmou em evento da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Com a Selic em 14%, bancos dizer ter dificuldade para oferecer crédito imobiliário com um teto de 12% de juros

Apesar dos desafios - que também passam por discussões relacionadas à indexação dos contratos e à dinâmica de pré-pagamento e portabilidade - os primeiros resultados são “animadores”, segundo Vivan. “Não há dúvida de que houve uma reversão na queda das concessões que vinha ocorrendo desde o início de 2025. Observou-se, já nos primeiros meses do período de testes, um incremento das concessões, tanto para imóveis até 1 milhão como para a faixa de R$ 1 milhão a R$ 2,25 milhões”, afirmou em discurso.

No primeiro semestre, o financiamento imobiliário apresentou desempenho acima das expectativas, com crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2025, para R$ 180,9 bilhões, segundo a Abecip. Com o resultado, a entidade deve revisar as projeções de crescimento para o ano. A estimativa divulgada em janeiro indicava expansão de 16% e volume aproximado de R$ 375 bilhões.

Procurada, a Abecip não quis comentar a proposta dos bancos, mas disse, por meio de nota, que “mantém um diálogo permanente e construtivo com o regulador, contribuindo tecnicamente para a análise dos diferentes cenários”. Segundo a entidade, “não há, necessariamente, uma solução única para cada situação: existem alternativas técnicas distintas, com diferentes impactos e implicações. Nosso papel tem sido apoiar esse debate, trazendo elementos que contribuam para uma avaliação ampla e fundamentada das possíveis soluções.”

FONTE: VALOR ECONôMICO