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05/05/2026

Aumento de preço de materiais acelera em abril e começa a preocupar construção – Valor Econômico

Valorização do petróleo, na esteira da guerra no Irã, tem efeito direto sobre certos custos do setor

Por Ana Luiza Tieghi

Os materiais de construção vinham segurando, nos últimos meses, a inflação do setor, que sofre uma pressão nos custos com mão de obra. A guerra no Irã pode mudar essa situação, o que já começa a preocupar empresas e analistas.

André Mazini, chefe da equipe de análise do Citi para a América Latina, afirmou ao Valor que deixou de ter ações das incorporadoras do segmento de baixa renda, que atuam no Minha Casa, Minha Vida (MCMV), como as preferidas dentro do setor de “real estate” - agora, prefere os shoppings -, justamente por causa da exposição dessas empresas à inflação dos materiais.

Visão similar tem o Itaú BBA que, em relatório do dia 27 de abril, afirma estar “mais cauteloso” com os incorporadores, especialmente com o segmento de baixa renda. “Planejamos rever a nossa tese para o setor em breve”, escreveram.

Como essas empresas não podem ajustar o valor das unidades após a venda, e vinham tendo vendas fortes, pode haver um impacto na margem dos apartamentos que estão em construção.

O aumento no preço do petróleo está por trás dessas preocupações, uma vez que tem efeito direto sobre o custo de produção do cimento: o coque, combustível dos fornos das cimenteiras, é derivado do petróleo e 80% do consumo nacional é importado. Há também efeito indireto em vários outros materiais, por causa do transporte.

Executivo de uma grande incorporadora que atua no MCMV afirmou ao Valor, em anonimato, que as concreteiras já comunicaram uma alta de 8% no material. No entanto, no geral dos fornecedores de materiais, tem havido margem para negociação, diz. “Começam falando em números absurdos, de 17% [de alta], mas você fecha por 3% ou 4%”.

A dúvida é se construtoras menores também estão conseguindo negociações mais vantajosas.

Os fabricantes de material de construção terminaram o primeiro trimestre com queda de 4% no faturamento, na comparação com o mesmo período de 2025, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Material de Construção (Abramat).

Nos 12 meses até março, a queda é de 3,3%. O espaço para absorver aumentos de custo, sem repassá-los aos clientes, portanto, está menor. Houve uma alta de 1,6% no faturamento do setor em março, de acordo com a Abramat, mas o presidente da entidade, Paulo Engler, pondera que o dado ainda não reflete os impactos da guerra.

“A escalada do conflito no Oriente Médio tende a pressionar custos de insumos relevantes, como aço e cimento, o que pode impactar a atividade da construção e o desempenho da indústria nas próximas leituras”, afirmou, em nota.

A FGV divulgou também no dia 27 de abril o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) referente a abril. Houve uma aceleração do indicador, que subiu 1,04% no mês, ante 0,36% de alta em março.

Nos 12 meses até abril, o indicador ficou em 6,28%, frente a 7,52% no mesmo período de 2025. Os materiais e serviços tiveram 4,56% de alta, enquanto a mão de obra apresentou inflação de 8,71%. O relatório da FGV aponta que houve uma “forte aceleração nos preços” dos insumos, com destaque para os “materiais para estrutura”, que subiram 1,82% apenas em abril.

Já há uma expectativa de INCC mais alto também em maio, por ser mês de dissídio salarial, afirma o executivo da incorporadora. Se a situação no Estreito de Ormuz continuar instável, também pode haver um reflexo maior nos materiais.

“O INCC historicamente vem em 5%, 6%. Estamos nos preparando para que talvez vire 8%, em momento de estresse, e temos que nos readequar a isso e seguir a vida”, diz. A saída será repassar o aumento de custo no preço das unidades.

Em 22 de abril começaram a valer novas faixas de renda para o MCMV, com valores mais elevados. O teto de preço das unidades também foi ampliado. Isso deve garantir algum espaço para incrementos de preço, com efeito menor sobre a velocidade de venda, que já vem sendo um ponto de atenção para os incorporadores.

Fora do programa habitacional, as empresas terão que decidir se aumentam preços mesmo diante de financiamento imobiliário ainda caro, que pressiona o poder de compra do consumidor.

 

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FONTE: VALOR ECONôMICO