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19/06/2026

Ações tokenizadas devem ultrapassar títulos públicos e liderar mercado digital até 2030 – Valor Investe

Estudo do Citi aponta papéis negociados em bolsa superando títulos de renda fixa, imóveis e private equity no processo de tokenização de ativos reais. Avanço de moedas digitais e projetos da NYSE, Nasdaq e B3 reforçam tendência

 

Por Laelya Longo

As ações devem se tornar a principal categoria do mercado de ativos tokenizados até o fim desta década, superando títulos públicos, imóveis e investimentos em empresas fechadas. A avaliação é do Citi Institute, braço de pesquisas do banco americano, em relatório divulgado hoje sobre as perspectivas da tokenização de ativos financeiros.

A instituição projeta que o mercado global de ativos tokenizados salte para US$ 5,5 trilhões até 2030, ante os cerca de US$ 20 bilhões atualmente. Embora os títulos públicos americanos e instrumentos de renda fixa sejam hoje os ativos dominantes nesse segmento, o Citi acredita que a próxima etapa de crescimento será liderada pelas ações negociadas em bolsa.

Pelo cenário-base do banco, as ações tokenizadas responderão sozinhas por US$ 3,6 trilhões em 2030. Em comparação, os títulos públicos e demais ativos de renda fixa tokenizados somariam US$ 1,4 trilhão, enquanto fundos imobiliários alcançariam US$ 200 bilhões. Já os mercados de private equity e crédito privado tokenizados movimentariam cerca de US$ 100 bilhões cada.

A tokenização é o processo de transformar um bem real ou financeiro em um registro digital. Esse registro, chamado de token, é uma espécie de "certificado digital" que representa o ativo original, permitindo que ele seja dividido em partes menores e negociado de forma ágil e segura

Para se ter uma ideia da evolução, segundo dados da plataforma RWA.xyz, referência global no acompanhamento do mercado de ativos reais tokenizados (RWAs), o setor movimenta atualmente cerca de US$ 32 bilhões em ativos tokenizados, sem considerar stablecoins (as criptos lastreadas a moedas fiduciárias, principalmente o dólar que ocupa 90% desse segmento).

Os títulos públicos americanos (as chamadas Treasuries) correspondem a 47%, com cerca de US$ 15 bilhões. Já as ações negociadas em bolsas ainda não alcançam US$ 2 bilhões, ou pouco mais de 6% do total.

Pelas projeções do Citi, esse cenário mudaria drasticamente, com os instrumentos de renda fixa ficando com uma fatia de 25% e as ações com mais de 60% do montante total.

A estimativa do banco já encontra respaldo em movimentos recentes da indústria financeira. Grandes agentes de mercado já trabalham para ampliar a oferta desse tipo de produto.

Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York (NYSE) anunciou o desenvolvimento de uma plataforma baseada em blockchain para negociação de ações e ETFs tokenizados, com funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, e liquidação quase instantânea. A iniciativa ainda depende de aprovação regulatória, mas reflete o interesse crescente das bolsas tradicionais em levar ativos financeiros para redes blockchain.

A Nasdaq também recebeu autorização da Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA) para permitir que determinados papéis sejam negociados e liquidados em formato tokenizado. Em uma primeira etapa, o modelo contemplará ações integrantes do índice Russell 1000 e ETFs atrelados a indicadores como S&P 500 e Nasdaq 100.

Segundo o Citi, a entrada de instituições como NYSE, Nasdaq e também da DTCC - a principal câmara de compensação do mercado americano - representa uma mudança importante na trajetória da tokenização. Em vez de ser liderado apenas por empresas nativas do mercado cripto, o movimento passa a ser incorporado pela própria infraestrutura tradicional de Wall Street.

No Brasil, a discussão também vem ganhando espaço. No final de maio, a B3, controladora da bolsa do país, reuniu reguladores, startups e participantes do mercado financeiro no Tokenização Day, evento dedicado à discussão de aplicações práticas da nova tecnologia no mercado de capitais. Entre os temas debatidos estiveram justamente os desafios de liquidação financeira, interoperabilidade entre sistemas e segurança jurídica - questões apontadas pelo Citi como fundamentais para a expansão do setor.

A B3 também aproveitou o encontro para reforçar o desenvolvimento da B3RL, sua iniciativa de “cripto de real”, além de outros projetos ligados à digitalização e tokenização de ativos financeiros.

Outro marco recente foi a saída da BEE4 do sandbox regulatório da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A plataforma, voltada à negociação de ações de pequenas e médias empresas por meio de tokens, passou a operar neste mês sob regime definitivo de autorização do regulador, consolidando uma das primeiras infraestruturas reguladas do país voltadas à tokenização de ativos.

Moedas digitais como infraestrutura

Ainda segundo o relatório do Citi, um dos principais fatores para a tokenização começar a ganhar escala é o avanço das moedas digitais, as stablecoins.

Segundo o estudo, iniciativas anteriores esbarravam em uma limitação estrutural: os ativos podiam ser representados digitalmente em uma rede blockchain, mas a liquidação financeira das operações continuava dependente dos sistemas bancários tradicionais. Com a expansão das stablecoins e dos depósitos bancários tokenizados, essa barreira começa a ser removida.

O Citi estima que o mercado global de stablecoins, notadamente as “criptos de dólar”, possa atingir aproximadamente US$ 2 trilhões até 2030. Na prática, esses ativos funcionam como o "dinheiro digital" necessário para permitir a compra e venda de ações, títulos e outros instrumentos financeiros diretamente em redes blockchain, com liquidação praticamente instantânea.

Evolução, não revolução

Apesar das projeções otimistas, o Citi avalia que a tokenização não deve substituir bancos, corretoras, bolsas ou demais intermediários financeiros.

Segundo o relatório, a tendência é de convivência entre sistemas tradicionais e estruturas baseadas em blockchain durante vários anos, em um processo gradual de modernização da infraestrutura financeira. O próprio banco descreve esse cenário como uma "evolução, e não uma revolução".

Na avaliação da instituição, o sucesso da tokenização dependerá menos da tecnologia em si e mais da capacidade de conectar diferentes plataformas, harmonizar regras regulatórias e integrar os novos sistemas às estruturas já existentes do mercado financeiro.

 

FONTE: VALOR INVESTE