Notícias

25/03/2026

A expectativa do mercado imobiliário com a redução dos juros – O Globo

A redução da taxa básica de juros começa a redesenhar as expectativas para o mercado imobiliário, um dos setores mais sensíveis ao custo do crédito. Ainda que o corte recente da Selic tenha sido de apenas 0,25 ponto percentual, executivos do setor avaliam que o movimento pode marcar o início de um ciclo mais longo de queda, com impactos diretos sobre o financiamento e a demanda por imóveis.

Em nota, a Associação das Incorporadoras (Abrainc) considera positiva a decisão do Copom de reduzir a taxa Selic, mas avalia que é fundamental garantir "uma trajetória contínua e mais consistente de queda dos juros no país". Um estudo da associação aponta que, nos últimos cinco anos, o aumento das taxas retirou cerca de 800 mil famílias do mercado de crédito para aquisição de imóveis de R$ 500 mil, o que representa uma redução de 50% no público elegível. Cada ponto percentual de aumento nas taxas elimina, em média, 160 mil famílias do financiamento.

- A redução é positiva, mas o país ainda opera com um custo de capital muito elevado, que restringe o crédito e desacelera a atividade econômica- afirma o presidente da ABRAINC, Luiz França, o ciclo de queda precisa ganhar intensidade.

Segundo dados da CBIC, houve aumento de 5,4% no volume de vendas em 2025 em relação ao ano anterior. O setor foi puxado pelo crescimento de negócios dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida. Já os contratos fechados com recursos da poupança tiveram redução de mais de 20%.

Para Vitor Moura, sócio-presidente da Patrimóvel, a redução da taxa tem impacto ainda maior no segmento de imóveis na planta, já que o crédito costuma ser contratado apenas dois ou três anos depois, na entrega da unidade. Nesse cenário, a queda da Selic aumenta a expectativa de condições mais atrativas no momento do financiamento.

- Embora o recuo de 0,25 ponto percentual seja modesto, ele já sinaliza um possível ciclo de reduções ao longo do ano - analisa.

A redução da Selic tende a ampliar o acesso ao crédito e estimular tanto a compra da casa própria quanto o investimento no setor, considera Filipe Menegheti, diretor de Negócios da The INC Incorporações. Em sua opinião, o movimento favorece tanto investidores, que passam a migrar da renda fixa, quanto compradores em busca da casa própria por meio do financiamento bancário.

- Como já ocorreu após a crise externa de 2008 e na recessão de 2015, ciclos de queda da Selic costumam ampliar significativamente a demanda por imóveis, acompanhados de uma valorização relevante - reflexo direto da lei da oferta e da demanda.

Para Sanderson Fernandes, CEO da Avanço Realizações Imobiliárias, mesmo com os juros ainda em patamares elevados, o setor tem demonstrado resiliência, sustentado pela demanda reprimida e pela busca por ativos reais. Para ele, com o crédito mais acessível, haverá um aumento gradual na confiança do comprador, tanto para moradia quanto para investimento. E isso tende a acelerar a velocidade de vendas e estimular os lançamentos.

- Para quem acompanha o mercado, fica claro que momentos de virada no ciclo de juros costumam representar boas oportunidades antes da valorização mais consistente dos ativos.

Apesar do otimismo, agentes do setor mantêm cautela em relação à velocidade e à intensidade desse movimento. A avaliação de Bernardo Provenzano, diretor financeiro da GAR Incorporadora, é que a consolidação de um ambiente mais favorável depende da continuidade da queda dos juros, da estabilidade da inflação e da efetiva transmissão dessas condições para o crédito imobiliário.

- Para nós, o movimento de redução da taxa Selic é pequeno, mas o sinal é importante. Ele sugere o início de um ambiente potencialmente mais favorável para o mercado imobiliário ao longo dos próximos meses, sobretudo se essa trajetória se confirmar nas próximas reuniões.

FONTE: O GLOBO