Índice Geral do Mercado Imobiliário Residencial
(IGMI-R)
O Índice Geral do Mercado Imobiliário Residencial (IGMI-R) avançou 1,07% em março, acelerando frente à variação de 0,91% registrada em fevereiro. Apesar desse impulso no curto prazo, a taxa acumulada em 12 meses desacelerou pela segunda vez consecutiva, passando de 11,19% para 10,73%. Esse arrefecimento na variação interanual sinaliza um possível esgotamento do ciclo de valorização mais intensa dos ativos residenciais. A moderação do ritmo de crescimento é coerente com a atual conjuntura macroeconômica, marcada por juros elevados — com a taxa Selic em patamar restritivo —, expectativa de desaceleração do crédito imobiliário diante da redução do funding e uma atividade econômica que avança de forma mais modesta. Esses fatores combinados impõem maior seletividade ao mercado comprador, o que tende a promover maior equilíbrio entre oferta e demanda, limitando a persistência de pressões inflacionárias no segmento habitacional.
|
IGMI-R
|
|
Taxas de variação mensal e acumulada em 12 meses
|
|
Região
|
Cidades
|
Var.% mês
|
Var.% acumulada em 12 meses
|
|
fev/25
|
mar/25
|
fev/25
|
mar/25
|
|
Nacional
|
BRASIL
|
0,91
|
1,07
|
11,19
|
10,73
|
|
Sudeste
|
São Paulo
|
0,46
|
1,20
|
10,92
|
10,51
|
|
Rio de Janeiro
|
1,29
|
0,91
|
5,72
|
6,23
|
|
Belo Horizonte
|
0,23
|
1,80
|
17,89
|
17,43
|
|
Nordeste
|
Fortaleza
|
0,22
|
0,74
|
10,82
|
10,75
|
|
Recife
|
2,74
|
0,45
|
5,79
|
4,97
|
|
Salvador
|
0,22
|
0,58
|
18,51
|
18,83
|
|
Sul
|
Curitiba
|
1,59
|
-0,14
|
16,62
|
13,09
|
|
Porto Alegre
|
2,23
|
0,45
|
4,38
|
2,45
|
|
Centro-Oeste
|
Goiânia
|
1,09
|
0,82
|
12,62
|
11,48
|
|
Brasília
|
1,13
|
2,69
|
4,98
|
4,58
|
Fonte: Elaboração FGV/IBRE com dados da ABECIP
A análise regional do IGMI-R revela dinâmicas heterogêneas entre os principais centros urbanos do país, refletindo especificidades locais de demanda, oferta e condições de crédito. São Paulo, mercado de maior representatividade no índice, registrou aceleração expressiva nos preços residenciais, com alta de 1,20% em março frente a 0,46% em fevereiro, sinalizando maior pressão sobre os ativos imobiliários, possivelmente influenciada por segmentos de média e alta renda. Belo Horizonte também apresentou variação acentuada, com o índice saltando de 0,23% para 1,80%, movimento que pode indicar recomposição de preços após um período de relativa estabilidade.
Em contraste, o Rio de Janeiro exibiu desaceleração, com a taxa mensal recuando de 1,29% para 0,91%. Embora ainda positiva, essa moderação pode refletir a dinâmica específica do mercado carioca, onde a valorização dos imóveis encontra limite no elevado estoque e na rigidez da renda disponível das famílias. Ainda assim, o mercado de locação segue aquecido, especialmente em bairros com boa infraestrutura urbana, o que pode estar gerando efeitos indiretos sobre os preços de venda por meio da compressão do cap rate (retorno esperado do aluguel sobre o valor do imóvel).
Nas regiões Nordeste e Sul, o comportamento dos preços residenciais também apresentou variações relevantes. No Nordeste, Fortaleza se destacou com uma aceleração significativa, registrando alta de 0,74% em março, frente à elevação de apenas 0,22% no mês anterior. Esse movimento pode refletir um reaquecimento pontual da demanda, decorrente de contratos de compra pactuados anteriormente.
No Sul, observa-se um quadro de desaceleração mais evidente. Em Porto Alegre, a variação mensal recuou de 2,23% em fevereiro para 0,45% em março, enquanto Curitiba passou de uma alta de 1,59% para uma ligeira queda de -0,14%. Essa redução nos principais mercados do Sul pode sinalizar o início de um ciclo de correção de preços, em linha com a menor propensão ao consumo de bens duráveis em contextos de juro real elevado. Além disso, o aumento do custo de oportunidade entre imóveis e ativos financeiros mais líquidos pode estar redirecionando parte da demanda para investimentos menos expostos à iliquidez do mercado imobiliário.
Por outro lado, Belo Horizonte manteve-se como um dos mercados mais aquecidos do país, embora tenha sinalizado início de acomodação em seu ritmo de valorização. A taxa interanual recuou de 24,08% para 17,89% em março, indicando uma possível inflexão após sucessivas altas expressivas ao longo de 2024. Embora ainda elevado em termos absolutos, esse movimento sugere uma trajetória de estabilização dos preços dos imóveis residenciais, compatível com a absorção dos ajustes promovidos nos últimos trimestres e com um mercado que começa a se reequilibrar entre oferta e demanda.
IGMI-R
Evolução da taxa de variação (%) no primeiro trimestre desde 2016
|
Cidades
|
Sudeste
|
Nordeste
|
Sul
|
Centro-Oeste
|
Nacional
|
|
São Paulo
|
Rio de Janeiro
|
Belo Horizonte
|
Fortaleza
|
Recife
|
Salvador
|
Curitiba
|
Porto Alegre
|
Goiânia
|
Brasília
|
BRASIL
|
|
2016
|
-0,71
|
-0,47
|
-1,62
|
0,90
|
-0,68
|
-1,68
|
0,07
|
-0,41
|
1,14
|
0,06
|
-0,57
|
|
2017
|
-0,16
|
-0,67
|
-0,28
|
0,60
|
-0,17
|
0,30
|
0,85
|
-0,17
|
-0,57
|
-0,06
|
-0,17
|
|
2018
|
0,30
|
-0,92
|
0,05
|
0,39
|
0,05
|
0,04
|
0,62
|
-0,08
|
-0,01
|
-0,21
|
0,08
|
|
2019
|
0,49
|
-0,60
|
0,16
|
0,36
|
0,19
|
0,92
|
0,83
|
0,55
|
0,33
|
0,33
|
0,26
|
|
2020
|
5,48
|
0,35
|
1,48
|
2,60
|
0,88
|
3,42
|
2,00
|
4,67
|
4,28
|
2,83
|
3,44
|
|
2021
|
3,12
|
0,42
|
0,78
|
0,41
|
0,55
|
1,21
|
0,53
|
1,18
|
1,61
|
2,54
|
1,73
|
|
2022
|
2,82
|
3,19
|
1,58
|
1,30
|
0,93
|
1,66
|
1,24
|
4,39
|
3,17
|
3,13
|
2,76
|
|
2023
|
2,27
|
1,82
|
0,84
|
2,43
|
2,16
|
1,16
|
3,79
|
1,63
|
1,59
|
1,02
|
2,05
|
|
2024
|
4,69
|
0,58
|
9,12
|
1,65
|
4,95
|
7,01
|
3,69
|
3,42
|
5,19
|
5,26
|
4,24
|
|
2025
|
2,22
|
2,38
|
2,11
|
1,00
|
2,81
|
2,15
|
4,39
|
1,37
|
2,05
|
4,08
|
2,39
|
Fonte: Elaboração FGV/IBRE com dados da ABECIP
A relação entre o IGMI-R e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) merece atenção especial, uma vez que o INCC frequentemente atua como um indicador antecedente da dinâmica de preços dos imóveis residenciais. Historicamente, há evidências de correlação com defasagem, sugerindo que elevações persistentes nos custos da construção tendem a ser repassadas aos preços dos imóveis com algum atraso. No recorte mais recente, a taxa interanual do INCC passou de 7,42% em fevereiro para 7,54% em março, mantendo uma trajetória ascendente. Como resultado desta correlação, há risco de perda de dinamismo do setor.
IGMI-R x INCC
Evolução da taxa de variação acumulada em 12 meses

Fonte: FGV e ABECIP
Em contraste com os preços de venda, o Índice de Variação dos Aluguéis Residenciais (IVAR) registrou desaceleração em sua taxa interanual, passando de 8,01% em fevereiro para 6,55% em março. Apesar de o mercado de locação permanecer aquecido em diversas capitais, o ritmo de reajuste dos aluguéis começa a perder fôlego. Essa retração pode sinalizar um ponto de inflexão no segmento, sugerindo que os efeitos da política monetária restritiva — evidenciada pela manutenção da taxa Selic em níveis elevados — estão começando a influenciar para além do mercado de crédito.
IGMI-R x IVAR
Evolução da taxa de variação acumulada em 12 meses

Fonte: FGV e ABECIP
A comparação entre o IGMI-R e o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) evidencia uma dissociação entre a inflação geral da economia e a dinâmica dos preços no mercado imobiliário residencial. Enquanto o IPCA acumulou alta de 5,48% na taxa interanual até março de 2025, o IGMI-R, registrando 10,73% no mesmo período, permanece operando em níveis superiores, apesar da trajetória de desaceleração observada nos últimos meses. Esse diferencial reflete, em grande parte, pressões inflacionárias setoriais — como o elevado custo da construção, a escassez relativa de determinados perfis de imóveis e a rigidez da oferta em algumas regiões metropolitanas. Além disso, a transmissão da política monetária restritiva sobre os preços dos imóveis tende a ocorrer com maior defasagem temporal em relação ao consumo corrente, dada a natureza de longo prazo dos contratos imobiliários e a inércia típica desse mercado. Assim, o setor imobiliário segue exibindo dinâmica própria, relativamente dissociada da inflação geral, ainda que sinais de convergência com os fundamentos macroeconômicos comecem a emergir.
IGMI-R x IPCA
Evolução da taxa de variação acumulada em 12 meses

Fonte: IBGE e ABECIP
Em uma análise comparativa, observa-se que o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) voltou a acelerar em sua taxa interanual, passando de 7,42% em fevereiro para 7,54% em março, refletindo a persistência de pressões inflacionárias sobre insumos, mão de obra e materiais. Em sentido oposto, o Índice de Variação dos Aluguéis Residenciais (IVAR) sinalizou moderação, com sua taxa interanual recuando de 8,01% para 6,55% no mesmo período. Essa divergência evidencia uma dinâmica setorial assimétrica: enquanto a cadeia de produção de imóveis permanece pressionada pelo aumento de custos, o mercado de locação já começa a refletir os efeitos restritivos da política monetária e a menor capacidade de repasse de preços.
INCC x IVAR
Evolução da taxa de variação acumulada em 12 meses
Fonte: FGV
A trajetória de desaceleração da taxa interanual do IGMI-R, iniciada em dezembro de 2024, reforça a sinalização de uma redução gradual dos preços dos imóveis residenciais. Ainda assim, a heterogeneidade regional permanece marcante, com algumas capitais — como Belo Horizonte, São Paulo e Brasília — sustentando ritmos de valorização superior à média nacional. Esse comportamento evidencia o peso de determinantes locais, como dinâmica demográfica, escassez de oferta qualificada e infraestrutura urbana, além de fatores conjunturais, como a composição do estoque de imóveis e a atratividade relativa de ativos reais frente aos financeiros.
A correlação observada entre o IGMI-R e o INCC continua sendo uma variável importante na explicação dos movimentos de preços dos imóveis residenciais, destacando o papel persistente dos custos de construção na formação de valor dos ativos residenciais. Ainda que essa transmissão ocorra com defasagem, a manutenção de patamares elevados no INCC impõe restrições à expansão da oferta, sobretudo em projetos voltados para a classe média. Ao mesmo tempo, os sinais do ciclo monetário tornam-se cada vez mais relevantes. Embora os cortes na taxa Selic ainda não sejam iminentes, expectativas positivas quanto à política monetária podem reaquecer a demanda por imóveis, revertendo parcialmente o atual movimento de moderação.
Nesse contexto, o IGMI-R mantém-se como instrumento indispensável para o monitoramento das tendências do setor imobiliário. Sua capacidade de capturar variações de preço com granularidade regional e temporal o torna fundamental para análises prospectivas e decisões estratégicas de investidores, incorporadoras e formuladores de política pública.